O Brasil – quem poderia pôr isso ainda em dúvida – está ascendendo assustadoramente. No entretempo, a assim chamada „revolução“ dos militares perdura oito anos. 1971 conferiu estabilidade e reconhecimento global à ditadura.

O presidente Nixon convidou para Washington o antigo ex-agente da inteligência Médici como um dos amigos mais próximos dos EUA; o Banco Mundial, Eximbank etc. mimam o gigantesco país tornando-o seu maior devedor – somente o Banco Mundial está considerando dar mais empréstimos no valor de até oito bilhões de dólares.

No 1º de abril de 1971 o presidente Médici fundou uma escola de informação que depende do serviço de propaganda do Estado. Desde abril está caindo uma chuva de elogios à República brasileira na televisão, na rádio, nos noticiários e nos jornais:

Aí chega-se a saber que o Rotary Club quer remediar a distorção da imagem do Brasil no exterior, que o vice-ministro da Educação de Israel declarou seu apoio para a televisão brasileira e que os médicos alemães Radenbach e Blaha se entusiasmaram com o alto padrão médico na cidade de Salvador (que outrora era chamada Bahia).

As pessoas disputam com os urubus os bois moribundos. No dia 12 de fevereiro milhares de famintos ocuparam a cidade de Arapiraca. Seis mil abandonaram Sergipe. Dez mil bois morreram de sede. As usinas de açúcar do Estado de Pernambuco não pagam os salários à seis mil trabalhadores há três meses.

Viajo para Irecê. O milho, a mamona e os feijões nos campos secaram. O gado moribundo está jogado nas ruas. Os urubus já não alçam voo quando um transeunte passa. Os trabalhadores sazonais ficam em cócoras na beira da estrada.

Um homem com a esposa, duas crianças e um recém-nascido veio do Nordeste assim como milhares na esperança infundada de encontrar emprego aqui. Sem dinheiro e sem comida ele retoma o caminho de volta. Ele ouviu dizer que caiu chuva no Nordeste. Mais de mil quilômetros sob o calor e a seca. O recém-nascido tem aquele corpo todo inchado pelos vermes. Leishmaniose visceral. O baço, o fígado, a medula óssea e os nódulos linfáticos são atacados por ela. Sem tratamento médico, a doença leva à morte em poucos meses.

O município de Irecê tem cerca de 60.000 habitantes. A metade veio do Norte. Agora na seca mais de três mil recém-chegados já foram transportados de volta. Ninguém sabe quantos morreram de fome à beira da estrada. Os mortos são enterrados nos campos sem atestado de óbito.

90 pessoas amontoadas esperam sentadas, com aquela paciência terrível dos famintos, nos caminhões. Se eles possuem o dinheiro para o transporte de regresso, em pouco tempo eles estarão de volta na seca do Norte. Se eles não conseguiram arrumar dinheiro, eles podem se deixar vender para o Sul, para São Paulo, para o Mato Grosso ou para o Paraná. O motorista do caminhão recebe 60 cruzeiros por cabeça, e eles ficam endividados e sem direitos à mercê dos fazendeiros.

Em Irecê há seis médicos para 60.000 pessoas. As deficiências de vitamina chamadas de desidratação são comuns, a leishmaniose é frequente. Quase todas as crianças têm amebas. A peste bubônica ocorre de modo endêmico e epidêmico. Os leprosos são mantidos aparte em pequenas cabanas nos campos.

Um terço da população de Irecê sofre de tuberculose. No primeiro ano de vida 70 por cento dos recém-nascidos morrem. Três quartos dos trabalhadores não ganham nem o salário mínimo fixado pelo Estado durante os períodos chuvosos, mas ganham apenas algo no valor que corresponde a uns dois marcos alemães[1] por dia. Os alimentos são mais caros aqui (em Irecê) do que na capital Salvador e em Salvador tudo é quase tão caro como em Hamburgo: um ovo custa uns 17 centavos de marco, um litro de leite uns 80 centavos de marco.

Fazemos a viagem de volta de ônibus. O ônibus leva 24 horas para percorrer 200 km. Lotado de famílias, umas engatadas nas outras, querendo ir com o dinheiro que resta para São Paulo.

Francisco de Assis morreu em São Paulo baleado pela polícia. Ele nasceu no Norte e se mudou aos quatorze anos para a capital. Como vendedor de frutas ele ganhava o equivalente a 40 marcos por mês. Aos 18, ele fundou uma gangue. Na sua ficha constam 100 assaltos e dez assassinatos. A polícia militar disparou quarenta e cinco tiros contra ele. Numa caixa de madeira bem leve – com uma tinta à óleo melecando seu nome: Francisco de Assis – ele foi enterrado.

Vira e mexe as crianças vomitam no ônibus de Irecê. Uma das famílias dos trabalhadores trabalhou de graça durante seis meses devido à seca e às condições de propriedade. Um ancião, seu filho com a esposa grávida, um jovem e um menino. A mulher carrega um bebê.

Os fazendeiros disponibilizaram as sementes e o equipamento. A renda deveria ser compartilhada. A família trabalhou do amanhecer até o anoitecer, no mínimo doze horas por dia. Um pouco de café de manhã, feijão ao meio-dia, feijão à noite. A primeira colheita deu certo. Ela rendeu 2000 cruzeiros. Ou seja, 1000 cruzeiros para cinco trabalhadores, referenciado trabalhando doze horas por dia, durante seis meses; o que dá um pouco mais de vinte marcos para cada um por mês.

A segunda colheita secou. Eles trabalharam de graça. O ancião não sabe ler nem escrever. O jovem aprendeu a escrever o seu nome aos dezesseis anos durante os dois meses de um curso de alfabetização. Quando um pneu do ônibus é trocado, eles ficam diante dos restaurantes dos motoristas de caminhão, assistindo os outros comerem. Eles têm a esperança de encontrar um emprego em São Paulo.

O último censo mostrou que 60 por cento da população trabalhadora no Brasil ganha menos de 200 cruzeiros por mês, o que equivale à uns 140 marcos. 30 por cento ganham menos do que 70 marcos por mês. Menos que 70 marcos é o que ganha a metade de todos os trabalhadores agrícolas. Após oito anos de „revolução“ dos generais.

Os preços dos principais alimentos – farinha, feijão, arroz, café, açúcar – dobraram desde 1967 ou chegaram mesmo a quintuplicar (feijão). No estado da Bahia, os custos de vida duplicaram no curso de um único ano. Segundo o deputado Paes de Andrade o desemprego no Nordeste aumenta anualmente em um milhão.

 

A Igreja Católica administra as casas.

 

No Natal de 1968 vários barracos da ​favela Providência desabaram e foram soterrados. Houve 45 mortes. O governo prometeu recursos e ajuda imediata.

No Natal de 1971 os pobres seguem vivendo nos barracos em risco ​​do Morro da Providência, no centro do Rio de Janeiro. Algumas favelas situadas em terrenos caros foram efetivamente evacuadas sob consideráveis investimentos da polícia ​​e de propaganda. No lugar dessas favelas foram construídos edifícios de luxo – não para os ex-moradores.

Também uma das maiores favelas do mundo, Rocinha, onde pelo menos 70.000 pessoas vegetam sem água corrente, sem assistência médica, geralmente sem eletricidade, está sendo parcialmente demolida sob a supervisão de helicópteros da polícia. Ela fica em frente ao grande hotel de luxo projetado por Oscar Niemeyer numa das fabulosas praias do Rio.

Aos que foram forçados a evacuar foram supostamente destinadas habitações sociais nas periferias da cidade e, é verdade, em Vila Kennedy, Cidade de Deus, Osvaldo Cruz, etc. existem novos conjuntos habitacionais e prédios, onde a miséria das construções sociais modernas se adequa à pobreza dos habitantes.

Em Osvaldo Cruz estão previstas 1080 unidades. Na favela Rocinha moram ao menos 20 000 famílias. Os moradores falam de mais de 150 000 pessoas.

Um pintor profissional ganha 600 cruzeiros por mês. Uns 400 marcos. Junto com sua esposa e dois filhos ele ocupa um dos apartamentos da habitação social de 50 metros quadrados, três quartos pequenos, um banheiro com chuveiro, cozinha embutida, 140 marcos de aluguel. Duas horas de viagem para o trabalho. As despesas de viagem são uns 40 Marcos por mês.

As famílias que não conseguem pagar tal valor de aluguel – e é a maioria – se mudam, depois de serem expulsas. para uma das novas favelas na periferia da cidade, onde os preços dos terrenos ainda não são considerados suficientemente atraentes.

Em Grajaú os barracos cobrem morros inteiros como uma úlcera. Vivem, se é que vivem, ao menos 200 000 em Grajaú.

Na Rocinha, tábuas de madeira, pin-ups, imagens de santos e armações pintadas das janelas dos mais pobres são queimados e completamente destruídos pelo fogo. De maneira desoladora as pessoas se mudam com apenas uma trouxa de um colchão furado e alguns pedaços de madeira – para a próxima miséria, onde a duras penas irão decorar novamente os barracos de tábuas permeáveis à chuva e fixar uma rosa de papel na parede, até a próxima especulação imobiliária.

Quem dirige na estrada principal para o Recife, vai ver casinhas estilo afro todas enfeitadas que dão uma noção de como poderia ser a cultura de moradia no Brasil se os bens fossem distribuídos de modo justo. Muitas vezes apenas as fachadas são embranquecidas, e mesmo o turista pode reconhecer nas partes restantes, não maquiadas, a verdadeira situação de moradia do povo.

Na comunidade rural de Serrinha a metade das casas é feita de barro e têm apenas um quarto, sem móveis, sem cama ou rede, sem luz; três quartos de todas as casas não têm latrinas – excrementos e esgotos escorrem ao redor das casas.

Em Maciel, a ex-área do palácio de Salvador, há um banheiro para cada 80 moradores. Aqui as crianças começam a se prostituir a partir dos doze anos de idade. Vejo um menino saindo de sua casa com um rato apodrecido e jogando-o na rua. Não há água. As casas são administradas pela Igreja Católica.

Dom Eugénio de Sales Araújo, Arcebispo da Bahia, recebeu há seis anos um relatório da Faculdade Geológica de Salvador que analisou a situação de moradia miserável da cidade e previu uma catástrofe no caso de chuvas fortes e persistentes. No dia 21 de abril Dom Eugénio Sales ainda pôde dissertar que é o amor e não a luta de classes o que é edificante; no entanto, ele não se preocupou muito pelos fundamentos das moradias de seus irmãos em Cristo.

Em 25 de abril de 1971, começa a chover. Imagino como as casas de barro começam a amolecer e desmoronar. Tudo fica molhado, os tetos, o pouco de farinha de mandioca. Os fósforos ficam molhados, e também o carvão vegetal. Amebas e caramujos, os hospedeiros intermediários para a esquistossomose, se misturam com as águas de nascente de cor vermelho lamacento.

Ninguém acolhe famílias pobres com dez crianças e sem pai legalmente responsável.

70.000 famílias sem-teto em Salvador em épocas de sol – quantas em épocas de chuva?

„Senhor prefeito, um dia de chuva e toda cidade está inundada?!“

„Não sou responsável por isso. Esse é o estado há 400 anos.“

Dia 27 de abril: No IML (Instituto Médico Legal) já se recebeu 19 mortos. O Secretário do Serviço Nacional de Saúde, Dr. Enio Rosende Pinto, explica: „Um leve aumento da poliomielite.“

No Palácio da Aclamação, a requintada residência do governador, alimentos são distribuídos para os sem-teto. O material da embalagem enche o jardim. Parece que o notável prédio vomitou.

Dia 28 de abril: milhões em danos. 140 mortos. 2.000 feridos. 3000 desabrigados. A água potável está em falta. O perigo da febre tifoide está banido – isso quer dizer que se deve temer uma epidemia de febre tifoide.

Na Baixa dos Sapateiros, evacuados relatam que de qualquer maneira suas camas são inundadas à cada chuva.

À uma senhora de sessenta e cinco anos só lhe restou o que tinha vestido no corpo. Ela ficou sem filhos, sem marido, sem familiares que poderiam lhe ajudar.

Continua chovendo. No dia 29 de abril são 7000 desabrigados. Alguns são transportados sob a guarda da polícia para os barracões da empresa Esso. As pessoas dormem em cima de tábuas, rodeadas por lama e excrementos. As instalações sanitárias mais elementares estão em falta. Mil pessoas aglomeradas. As mães lavam as roupas nas poças em frente aos barracões. A água potável na cidade está contaminada por cadáveres de gado do interior do país com febre tifoide.

Dom Eugénio Sales, que não quis dar ouvidos aos geólogos, envia um telegrama no qual ele assegura que está orando pelo povo da Bahia. Estas orações não parecem ser de agrado de Deus. Paulo Sexto, mais prudente, limita a comunicar telegraficamente a promessa de suas orações para os mortos.

 

„Dez por cento de todos os brasileiros são aleijados.“

 

As damas da elite reúnem no Palácio da Aclamação as modas da última temporada e juntam os restos de suas farmácias caseiras para as vítimas. Os empregados servem refrescos e sanduíches.

No dia 5 de maio: 150 mortos. 30 casos de pólio, o mesmo número de febre tifoide e difteria. Fala-se de varíola e peste. Falta comida para os desabrigados.

No dia 12 de maio irrompe a leptospirose, uma doença infecciosa transmitida por ratos que através da decomposição dos rins e do fígado leva à morte. Uma terapia eficaz ainda não está disponível.

O Papa rezador, Dom Eugénio Sales rezador, o governador voluntarioso e sua esposa e todos os seus servidores não conseguem impedir que os milhares de desabrigados degradam durante quase quatro meses na lama, na água, separados uns dos outros por cordas, sob vigilância policial, sem trabalho, sem alimentação suficiente e com as barrigas inchadas endurecidas. Apenas no dia 19 de agosto o governador Antônio Carlos Magalhães entrega 410 novas acomodações.

São casas bem distantes das linhas de ônibus, não há nenhuma perspectiva de emprego na vizinhança. Uma escola não funciona. Não há janelas de vidro. Quando a porta está fechada, os quartos de 36 metros quadrados são tão escuros que não dá para ler nem trabalhar. Não há água. O vaso sanitário sem separação em quarto individual. No chão de terra, um fogo para cozinhar. A água da chuva escorre pelo chão de terra. Uma almofada de papelão para as crianças dormirem. Nenhuma mesa. Nenhuma cadeira. Nenhum armário. Nem médico nem posto de saúde.

No dia 10 de outubro algumas famílias são despejadas do Clube de Esporte que os tinha alojado, e circulam durante horas em caminhões da prefeitura. Não há casas para eles. Eles são deixados num novo assentamento, onde se alojam ao ar livre.

Dona Maria da Paz deixa o Hospital com uma perna engessada. Como ela não pode indicar nenhum endereço, a equipe sanitária da ambulância deixa-a na rua. A sua casa desmoronou em abril.

Uma descrição da situação de saúde no Brasil soa monótona. As doenças dos pobres são monótonas. Eu não quero desfalcá-la com efeitos literários para entreter o leitor.

60 por cento da população não pode comprar remédios.

A expectativa média de vida é de 50 anos. 40 por cento das mortes se devem à esquistossomose, doença de Chagas, malária, tuberculose e lepra.

A médica Dalva Sayeg descobriu que a fome permanente em oito milhões (40 por cento) de todas as crianças brasileiras suscita danos cerebrais.

O diretor da Divisão Nacional de Lepra, Dr. Nilson Carvalho da Silva, fala de 123,888 leprosos registrados. Só no estado de Minas Gerais houve 40 000 casos de lepra durante o último ano. O Ministério da Saúde admite 94 casos de peste.

O presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia. Dr. Jorge Faria: „Dez por cento de todos os brasileiros são aleijados.“ 53 milhões sofrem de infecções por vermes, dezenas de milhões de esquistossomose, quatro milhões da doença de Chagas, para a qual não existe tratamento até hoje: ela é transmitida por percevejos.

 

Nos livros didáticos, perguntas pelo aniversário de Pelé

 

Em Pernambuco, 70 por cento dos trabalhadores rurais estão doentes com tuberculose; 24.000 casos de tuberculose no total, dos quais 1 664 resultaram em mortes durante o ano passado.

Oito anos após a chamada „revolução“ dos militares.

A poliomielite, que quase foi erradicada em Cuba, no Canadá e nos EUA, aumenta no Brasil. Nos anos 1969 e 1970 o índice de 1,3 por mil foi para 2,4 por mil, quase duplicou.

Quais mecanismos conscientes ou inconscientes chegam a ser eficazes para evitar a revolta das massas a partir desta situação? A imbecilidade é frequentemente o resultado da deficiência de vitamina; a paciência é muitas vezes menos o fruto da sabedoria que da debilidade.

O país gigante com suas megalópoles futuristas e uma população relativamente escassa – 93.215.301 habitantes no início de setembro de 1970 – se descompõe em muitas províncias morais. Coexistem a ambivalência indígena ao lado da rigidez ioruba, um certo tipo de matriarcado ao lado da implacável escravização das mulheres. Por mais que a população seja sempre representada na literatura tropical como sendo lasciva, aqui não se vai muito longe com libertinagem e liberalidade, caso contrário não seria tão difundida – e patrocinada pelo estado – a prática substitutiva do futebol.

Cada homem empurra e empurra até conseguir por para dentro a coisa redonda, como primeiro antes do adversário, tanto faz se é um pária morto de fome ou um estudante intelectualizado do ensino médio, se branco, mulato ou preto.

Aos sábados, domingos e em muitos feriados as praias são inutilizáveis, cada metro quadrado está à serviço do estresse de agressividade sobre as bolas, assim como também os pátios de igreja e as principais ruas do trânsito. Os reboques dos caminhões servem para desafogar o povo e deixar suas pernas mais competentes.

Quem não sabe chutar não é homem. Nem a Igreja Católica nem o Candomblé, nem o exército militar e nem a escola dominam as cabeças, o corpo abaixo da cintura e a mídia de modo tão abrangente como o futebol.

Até o mais miserável tenta poupar para conseguir um lugar no estádio de futebol, onde os reis do futebol ascendem até gerentes de banco ou, pelo menos, a um salário mensal de cerca de 10.000 marcos.

A Copa do Mundo foi convertido pelo governo de Médici numa campanha de propaganda para o governo.

Não existe no Brasil nenhuma cidade grande que não tenha ao menos um superestádio para o esporte nacional, cujos gastos chegam a milhares de milhões. Bilhões de cruzeiros que de preferencia são silenciados.

Salvador tem apenas uma maternidade para as classes mais baixas, com 140 camas. São duas mães por colchão e elas são obrigadas a sair da maternidade 24 horas após o parto – mas Salvador tem um estádio que comporta mais de 100 000 pessoas e terá um segundo estádio em poucos anos.

A inauguração do monumental estádio se tornou uma campanha de propaganda flagrante. Presidente Médici se tomou o tempo para inaugurar uma estátua do Pelé, soltar pombos sobre o público reunido e assistir a duas partidas de futebol.

Provavelmente até hoje não foi estabelecido o exato limite de carga desta construção de cimento. Mas de 100.000 ingressos haviam sido vendidos. No início do jogo foi autorizada a abertura dos portões e a entrada gratuita de mais milhares de pessoas; o estádio recém-inaugurado teve uma sobrecarga de aproximadamente 50.000 pessoas, tal se ficou sabendo depois.

Durante o segundo jogo o pânico eclodiu. Dois mil ficaram feridos. Houve algumas mortes. A instalação sonora não estava funcionando e pôde se observar como as principais lideranças ficaram mudos agitando os braços ineficazmente.

Como culpados foram apresentados repórteres de TV, proletários infelizes foram presos. Ninguém se atreveu a assinalar como únicos responsáveis e irresponsáveis as lideranças que, por vaidade pessoal, colocaram a vida de 150.000 pessoas em risco.

Pelé. O rei do futebol negro se tornou para a camada negra do Brasil – se estima 40 por cento de negros – e para o exterior o símbolo de um sistema supostamente não-racista que é determinado exclusivamente por brancos.

Uma estátua de Pelé em todas as grandes cidades. As revistas publicam edições especiais: Documento Histórico: a vida e a fama de Pelé!

Pelé faz propaganda de baterias. Pelé faz propaganda contra drogas. Pelé faz propaganda pela declaração de imposto de renda e pela produção de indumentária de seu próprio império de negócios. Pelé grava filmes para a televisão. Pelé é abraçado pelo presidente.

O governo queria que Pelé aparecesse em Genebra como representante dos trabalhadores brasileiros na Conferência Mundial do Trabalho.

Nos livros didáticos: Assinale a frase correta: Pelé é o rei do Brasil. Pelé é o rei do futebol. Pelé é o rei das Américas.

Responda as seguintes questões: O Rei Pelé: Nome … local de nascimento … estado civil …. dados biográficos … Quantos gols em 1954?

Pelé vai como mensageiro da concórdia para Paris e é recebido em Orly com as honras de um chefe de Estado.

Pelé com B.B. Pelé com a rainha Elizabeth. No dia 17 de fevereiro de 1971 Pelé entrega à Francois Duvalier uma medalha brasileira, abençoado e sangrento.

O Carnaval começou como uma festa popular afro-brasileira com perfil sócio-crítico e agora se desenvolve como uma válvula que deve controlar, de modo bem preciso, a necessidade das massas pela liberdade de movimento.

Se o futebol paralisa a flexibilidade intelectual sobretudo da população masculina, o carnaval ocupa durante meses inteiros uma boa parte das mulheres, particularmente nas grandes cidades.

 

O Candomblé torna as pessoas em crianças.

 

(A mania de limpeza nas famílias brasileiras, a doidice por roupas passadas a ferro e a loucura por roupas branquinhas conseguem expulsar alguns agentes patogênicos e arrumar uma roupa chique e adequada para o domingo até mesmo para o mais pobre na favela – montículos de excremento e ratazanas apodrecidas nenhuma mãe pode passar com ferro. O imenso esforço de limpeza consome uma grande quantidade de energia para a crítica.

De propósito ou não, a coleta de lixo nas favelas e nos bairros de prostituição é muito precária ou inexistente – como, aliás, também em Harlem.

Quantas idas até à fonte de água – geralmente localizada a quilômetros de distância – são necessárias para dar um banho diário para 8, 12, 16 crianças e para deixar o terno plissado branquinho, o símbolo paterno?)

No Rio, a famosa escola de samba Mangueira já começa em setembro a ensaiar as batucadas para o carnaval.

Durante quase meio ano as lantejoulas adquiridas a duras penas são costuradas nas acetinadas fantasias de carnaval em todas as casas até chegar os dias nos quais dezenas de milhões acreditam que as ruas e os meios de comunicação lhes pertencem, quando na realidade estão sob o controle da polícia militar e do exército disfarçado ou mesmo apenas da VW e Ford e Arndt von Bohlen e Halbach.

*

Seis camadas culturais: em frente o chão de terra contaminado e esverdeado da favela de zona industrial; a fachada das casinhas de trabalhadores construídas por eles mesmos com uma inclinação picassiana; a pintura colorida – portuguesa; o interior com paredes de partição semi-elevados, o telhado indígena, com uma adaptação tipo tenda; na imponente sala de estar um monte de santos de plástico, máquinas de costura Singer, mesas de TV — a mãe-de-santo de uma casa de Candomblé dispõe de rendas consideráveis; atrás os cadáveres de animais decapitados são jogados para fora do quarto de iniciação inundado de sangue. Apesar de extensas atividades científicas, a pesquisa decisiva do Candomblé ainda está pendente. O destaque desta religião afro-americana, a transformação dos adeptos em certos deuses, permanece desconhecida.

Há uns 150 anos, ritos de Dahome, Nigéria, Angola etc. permaneceram, sob o manto de uma cristianização (sem que importe o quão profundo tenha avançado), frequentemente mais puros no Candomblé do que na própria África. De modo parecido em Cuba. No Haiti sob o nome de vodu ou vodou. Também na Guiana. Faz parte dos sinais ocultos da arrogância ocidental que o grupo religioso afro-americano nunca foi reconhecido pelo que ele significa: um dos maiores movimentos religiosos de todos os tempos.

O principal procedimento desta religião que se manifesta tanto em ritos secretos quanto em festas públicas é a transformação do adepto num deus através do transe. O transe no início de uma trajetória religiosa assalta o escolhido „de repente“ e desordenadamente. No percurso do tempo de iniciação, que pode durar até seis meses, aquele trance inicial é condicionado por meio de – sim, por meio de quê? – batucadas, dança, banhos de ervas, pressão psicossocial e talvez choques.

O noviço sai dos banhos de sangue e das curas de ervas da iniciação como alguém transformado mentalmente e muitas vezes somaticamente.

Apesar da grande beleza das festas, do gingado das músicas, da verdadeira cultura pop dos altares mistos e das manifestações à modo de happenings não se pode negar que o Candomblé despedaça a consciência das pessoas. Eles se tornam e são como crianças, dizem os nativos.

Segundo a estimativa cautelosa de Edison Carneiro, o número de adeptos no Brasil gira em torno de 5 milhões. Outros falam em 20 milhões.

Apenas na Grande Recife foram contados 20.000 centros de culto numa população de dois milhões. Cada centro deve contar com mais ou menos 50 associados. Na Bahia, há em torno de mil casas de candomblé.

Quase todos sacrificam para o xamã.
Uma iniciação custa entre 300 e 3000 marcos. Uma lavadeira, que ganha em torno do que equivale a 60 marcos, passa fome em casa para conseguir reservar o seu salário para as despesas da iniciação.

Se demorar muito tempo para saldar a dívida, ela vai trabalhar – ou também os seus filhos – na casa da mãe de santo. Eu vi uma menina epilética de sete anos que ainda meses após sua iniciação estava trabalhando como semiescrava para saldar sua dívida.

A chance de abrir uma casa de candomblé rentável em poucos anos desempenha um papel para essas vítimas. A pressão psicossocial que emana de figuras maternas poderosas e de „pais“ misteriosos não se compara a nada. Em Salvador eu raramente encontrei alguém independente que não teria acreditado no Candomblé ou ao menos sacrificado através de seus criados aos xamãs.

Os sacerdotes, em sua legalidade a meias, evitam qualquer problema com as autoridades. Até mesmo os policiais têm medo e não levam até o fim investigações de certas ações sacrificiais extremadas.

O presidente Kubitschek chamou Joãozinho da Goméia, que antes era um menino faminto do Nordeste e hoje chega a ser considerado o rei do candomblé, para uma consulta no palácio presidencial.

Antônio Carlos Magalhães, governador do Estado da Bahia, não se esquece de promover uma recepção de aniversário para as mulheres importantes da Sociedade Underground.

O Candomblé conta com um número considerável de seguidores na esquerda intelectual mais ou menos burguesa. Eles projetam sua interpretação de uma atitude de oposição nesta comunidade religiosa.

Mas tenho a impressão que os opressores do Brasil já reconheceram há muito tempo que eles não têm aliado melhor do que o sacerdócio dos cultos afro-brasileiros que não só apaga qualquer faísca de consciência crítica, mas é capaz de quebrar toda consciência humana.

O final segue na próxima edição.