– Eu elogio a zona

– O padeiro recebe ratos pelo pão.

– O pedreiro recebe uma miséria por hora.

– O vigarista recebe duas libras.

– A zona é a arte.

– A zona é a verdade verdadeira.

– Gretchen é o existencialismo.

– O anjo negro com os olhos violetas é o socialismo.

– A Maria vai com as outras é a caridade.

– Fred é o Nouveau Roman.

– O bonitinho do bar Palette é a Art Brut.

– Psicanálise, fisioterapia, Weltgeist, mais-valia, iluminismo é a Maria vai com as outras, das Gretchen (é) a teoria quântica, Fred é a entropia.

Hubert Fichte, Der kleine Hautptbahnhof oder Lob des Strichs (A pequena estação central ou Elogio da zona)

Inicialmente escrevi esse texto para uma série de palestras no Tanzquartier em Viena intitulada “resistência contra a teoria”, mas seu ponto de partida remonta a uma contribuição que fiz durante uma exposição que contou com a curadoria de Jürgen Bock no Instituto Goethe de Lisboa, onde foram apresentados alguns filmes e trabalhos para a rádio de Hubert Fichte. Isso foi no começo do ano 2013.

A expressão “resistência contra a teoria” evoca duas coisas na mente de alguém que passou grande parte de sua vida em academias de arte. Uma delas diz respeito à resistência, ainda massiva e bem tradicional, que artistas manifestam contra disciplinas teóricas; uma resistência que, vista de perto, se diferencia enormemente da inclinação clássica populista contra a abstração e a ausência de objetos concretos, contra o blá-blá-blá e os estrangeirismos, mas que muitas vezes se revela como uma resistência contra a verbalização – uma resistência sobretudo contra a escrita e a fixação de fato ou pretendida que lhe é associada e que é vivida como castradora, limitante, mas também como uma exigência excessiva.

Esta postura muitas vezes é irritante, mas em alguns casos ela também pode ser compreensível. Contudo, um docente de disciplinas teóricas vai dar preferência frequentemente a esta postura que à adaptação direta da teoria como uma ferramenta sem sua própria história e dignidade e até mesmo sem resistência própria, disponível a qualquer momento para ornamentar um trabalho ou lhe servir como suplemento.

Por outro lado, um componente teórico – e isso quer dizer na maioria das vezes proveniente da área da filosofia, da história da arte, da sociologia e/ou dos estudos culturais – faz parte hoje em dia do estado das coisas no campo artístico, É daí, e também por certas razões politico-culturais e burocráticas, que surgiu recentemente o que é conhecido como artistic research, aquela dimensão de articulação teórica institucionalizada no meio artístico. Um antecedente disso é o que eu gostaria de apresentar aqui a partir dos métodos de trabalho e de escrita do autor alemão Hubert Fichte e da fotógrafa Leonore Mau: a busca pela viabilidade do emprego de meios artísticos para fins de pesquisa e formação teórica, na qual a porosidade específica ou, como diz Fichte, a sensibilidade do artista, sua ausência de resistência contra a realidade constitui uma forma de resistência contra a teoria – não para impedir a teoria, mas, ao contrário, para lhe fornecer ferramentas e meios, que não podem mais ser concebidos meramente de modo instrumental como meios e metodologias, mas que antes deveriam ser descritos como formas de vida.

Há também um tipo de critério para o sucesso desta ciência dos artistas. Eis, nesse caso, o fato que os campos de pesquisa desenvolvidos por Fichte e Mau são justamente aqueles que uma década depois no meio acadêmico anglo-saxão e duas décadas mais tarde também no meio acadêmico alemão se tornaram disciplinas das ciências humanas conhecidas hoje em dia como Queer Studies, Postcolonial Studies, Comparative Visual Culture Studies. You name it. Sua relevância chegou a ser, por assim dizer, reconhecida oficialmente. E não se trata apenas do fato de que os temas destas disciplinas aparecem como temas na narração de Fichte, mas que ele já faz propostas conceituais a respeito e as coloca à prova. Mas também se apresenta a questão por que algumas destas novas disciplinas, como os estudos feministas e os estudos queer, os estudos minoritários e pós-coloniais renderam tanto nas academias de arte e no campo artístico, enquanto no campo universitário foram relegadas a ter uma vida à sombra de disciplinas já consagradas ou apenas como parte especializada delas: por exemplo, egiptologia como ênfase no estudo de gênero. Também nessa constelação é notório que um autor que antecipou metodologias e perspectivas que poderiam ser atribuídas hoje em dia aos estudos queer e aos estudos pós-coloniais, as desenvolveu precisamente em seus textos literários.

Nos romances que estão no início da Geschichte der Empfindlichkeit (A História da Sensibilidade)[1] – o grande projeto literário roman-fleuve[2] de Fichte – são ensaiados métodos, desconhecidos nas ciências sociais estabelecidas, que permitem a participação em constelações sociais particularmente incitantes para o pesquisador. A sexualidade oscila entre método e objeto; tortura e prisões contribuem mais para a avaliação política das relações investigadas que os dados econômicos, embora estes também sejam apresentados com riqueza de detalhes. Isso fez com que Fichte já em seu tempo fora acusado de considerar mais importantes as “liberdades burguesas” que as relações de classe. Como se posiciona a sua teoria em relação a uma teoria que trabalha com essa alternativa e qual o papel da circunstância de que entre as contribuições cientificas e literárias na história da sensibilidade ao menos não há diferença retórica ou poética? No romance intitulado explicitamente Forschungsbericht (Relatório de Pesquisa), que também faz parte da história da sensibilidade, Fichte escreve:

“- O que faço com uma mentira no relatório de pesquisa?

– É isso aí. Relatório de pesquisa. Romance.

– Heródoto é o primeiro romancista. Ele escrevia como ele imaginava o Egito. Como os egípcios lhe mentiram sobre o Egito.

– Histämie e Tithämi: mostrar mentiras.

– As ciências são romances sobre heróis como Hegel, Freud, Lacan. Os autores são os títulos.

Jäcki escreveu as primeiras linhas.

Segunda-feira, dia 4 de fevereiro de 1980.

– Estou ansioso para a comida, eu disse.

– Eu quero fazer o meu trabalho em paz, disse Irma.

– Eu trabalho enquanto eu como.

O táxi passou ao lado de um monumento patriótico.”

Também aqui, como em quase todas as partes de sua obra de roman fleuve, trata-se de duas pessoas chamadas Jäcki e Irma que estão em quase todos os relatos por um lado viajando e por outro realizando pesquisas diversas: eles se interessam pelas relações políticas, especialmente nas prisões, pela situação dos presos políticos, dos homossexuais, a psiquiatria, a psicologia, a religião e os rituais de uma região do mundo – geralmente da África ou da diáspora africana – e às vezes, como nesse romance Forschungsbericht (Relatório de Pesquisa), eles se chamam antropólogos ou etnólogos.

Há dois tipos de romances de Hubert Fichte. Um deles são os “Heimatromane”, os romances locais, cujo cenário é Hamburg e que se ocupam dos âmbitos desta cidade, nos quais Fichte interagia. Ele trata todos eles igualmente como subculturas, abordando-as de um modo quase-antropológico, seja o mundo literário dos autores, editores e jornalistas, seja a zona de meretrício na estação central, seja a heterossexualidade profissional no prostibulo de St. Pauli, seja o porto e seus trabalhadores, ou seja, finalmente, a boemia no bar Palette, onde tudo isso se mistura e artistas e filhos de famílias burguesas dão uma escapada. O outro tipo são os “Reiseromane”, os romances de viagem, que não se diferenciam nem pelo procedimento literário e nem pelos métodos de pesquisa, mas pelo fato que seus protagonistas são sempre duas pessoas, Jäcki e Irma, um escritor, alter-ego de Fichte, e uma fotógrafa, a esposa de Fichte, Leonore Mau. A pesquisa procede por meios audiovisuais. Surgem daí realizações em conjunto no formato de foto-filmes e também de livros compostos por imagens e textos, como, por exemplo, o livro Xango e Petersilie sobre religiões afro-americanas, resultando sempre num volume de Mau e outro de Fichte. No mais, nos romances de Fichte, Irma não está apenas presente como figura, mas também sempre como representante de um princípio de pesquisa. A partir da escrita e da fotografia se conforma um método etnográfico que é complementado por três outros métodos, que envolvem tanto imagem quanto texto ou nenhum dos dois. Primeiramente trata-se de entrevistas com as pessoas que participam nos temas de pesquisa, sejam eles pescadores portugueses, artistas norte-americanos, o presidente do Senegal, Leopold Sedar Senghor, ou da Tanzânia, Julius Nyere. No mais, trata-se de relações sexuais com os participantes, sejam eles pescadores portugueses, artistas norte-americanos ou até policiais brasileiros ligados a prisões, nas quais ocorrem torturas. Quem quer escrever uma história da sensibilidade deve estar sempre testando sua própria sensibilidade na dos outros, e o melhor modo para tal são as relações sexuais. Faz parte ainda tematizar também a sexualidade entre Jäcki e Irma, a única relação heterossexual na vida do pesquisador.

Fichte relacionou muitas vezes seu projeto da história da sensibilidade como o projeto literário de Proust em busca do tempo perdido. Ambos os títulos se camuflam como parte de um projeto cientifico que aspira estabelecer ordens formais – histórias, pesquisas – que poderiam também revelar-se como condição de possibilidade da formação de teorias nas obras científicas comuns. Mas se o tema de Proust é o tempo e como ele se torna visível para um lugar e seus habitantes enquanto duração, o tema de Fichte é um mundo que ainda perdura, mas é um mundo acidentado, parcelado e segregado, cujas diferenças apenas se tornam perceptíveis para o viajante como sequencias e eventos que se sucedem no tempo, embora mesmo assim estejam presentes de modo simultâneo num lugar. Enquanto cientistas coloniais, mas também etnógrafos e exploradores viajam, pessoas sensíveis permanecem quietas e tentam habitar um lugar. Guerrilheiros e rebeldes são considerados telúricos e vinculados a um lugar, enquanto viajantes geralmente são conquistadores, colonizadores, turistas e o pior viajante é o dinheiro. Fichte reverte essa visão de mundo estruturalmente antissemita, na medida em que se torna um viajante sensível e na medida em que introduz, ao lado dos atores conhecidos do internacionalismo, tanto os bons quanto os ruins, um novo princípio de internacionalismo, a saber, a homossexualidade e as relações transculturais promovidas por ela, sejam estas de amizade ou de redes sociais, mas também nexos problemáticos e vínculos de poder. Para tal, Fichte remete também a algumas tradições, como aquela do grande viajante gay, o conde Platen, entre outros, que ele cita de modos variados, embora estes recursos sejam antes de natureza literária do que cientifica.

Agora bem, escritores de viagem acabam sempre formulando um programa heurístico, ou seja, uma teoria daquilo que eles querem investigar nas viagens. Isso os diferencia de outros escritores em cujas narrativas ou tudo se passa entre viajantes ou um protagonista é simplesmente levado de um lugar para outro. Tal teoria pode ser inscrita em determinadas categorias. 1) Você viaja, para se tornar um estrangeiro, afim de poder enxergar também teu mundo de um ponto de vista alheio. O que, num “Entwicklungsroman”[3], leva a uma reconciliação: como estrangeiro do teu próprio mundo você pode aceitar intelectualmente aquilo que você antes havia combatido emocionalmente. Terapia. Ou 2) Você vai embora, para se sentir em casa em outro lugar. Aqui novamente o objetivo é uma reconciliação. Pela fuga. 3) O terceiro modelo aparece com mais força entre escritores após a segunda guerra mundial, justamente entre aqueles grandes autores gays da vanguarda pós-guerra como William S. Burroughs, Jean Genet e Paul Bowles. Trata-se neste modelo de persistir estrangeiro, seja apenas para assim poder – via subtração da integração a mundos de vida específicos que certamente são também culturas locais e nacionais – experimentar uma essência ou verdade da existência como quer que estas estejam determinadas, seja por amor ao transitório e inacabado que a vida em hotéis oferece, tal como aquela célebre que levava Jean Genet.

Para Fichte trata-se deste último objetivo numa nova versão: através do sequenciamento das viagens de pesquisa que, embora diferenciadas entre si, aparecem também interconectadas numa história da sensibilidade. Como aparece formulado no livro Forschungsbericht (Relatório de Pesquisa), as dúvidas a esse método também fazem parte dele:

“Apesar da sua fuga de Hamburg, do Panamá, também de Nicarágua, apesar do alívio:

Agora realmente estou com os caribenhos negros em Belize.

– Vamos embora!

– Vamos embora novamente!

– Viajar! ele pensou: abraçar tudo!

– O mundo! Sim!

– Viajar é a dissolução do mundo, pensou Jäcki: estar em todo lugar. Em lugar algum.

A dissolução do mundo, eis o preço para estar em todo lugar, que apenas não deve ser pago se o contato com o mundo em cada caso se torna realmente um abraço, uma troca sexual.

– As palavras começaram a virar pele. Jäcki pensou:

– Quando um homem toca com sua ponta do dedo a borda da unha de outro homem, apenas por um milésimo de segundo, algo incende para todos os tempos nas camadas do cérebro, irreversivelmente – como o sol na prata dos filmes.

– É mais perigoso tocar Irma.

– Por meio da fala você pode colocar a mão no quadril de alguém.”

Os homens são luz e filme uns para os outros, mas Irma é, precisamente, fotógrafa. Ela se torna administradora ou curadora das relações com o mundo que Fichte vivencia no contato com outros homens, mas de cujas indicações e rastros ele apenas pode tomar nota ou, por assim dizer, ler à flor da pele. Ela, por sua vez, pode fazer algo assim como o enquadre da imagem.

Mas há também outra possibilidade de evitar essa dissolução, que consiste em modelar a viagem como uma obra de arte ela mesma. Em todos os romances da história da sensibilidade não se trata apenas das experiências de uma viagem, mas também da viagem que descreve o que foi vivenciado em outra viagem. E ainda dos contextos econômicos – os royalties de três romances publicados por Fichte entre 1967 e 1970, além de alguns ingressos por encargos de trabalhos de rádio, imprensa e fotografia. Nesse texto, estarei me referindo, sobretudo, ao romance Eine glückliche Liebe (Um amor feliz) que é uma construção complexa de diversas viagens: Jäcki e Irma viajam em 1964 para Sezimbra, um vilarejo de pescadores em Portugal com pouco turismo naquela época da ditadura de Salazar. A viagem serve para o plano de Fichte de contrapor algo à literatura Beat, tão apoiada e publicada por Walter Höllerer, que é também promotor de Fichte mas é visto por ele mesmo com certo ceticismo. Fichte planeja e escreve o romance Die Palette em Sezimbra, enquanto faz as pesquisas para o romance Glückliche Liebe (Um amor feliz) e um trabalho de foto e filme em conjunto com Leonore Mau. Ele escreve o romance, que transcorre em Sezimbra, 20 anos mais tarde em Grenada como parte da história da sensibilidade, ao mesmo tempo em que realiza as pesquisas de Grenada para suas reflexões acerca do que ele vai chamar de “bicontinentalidade negra” no romance Forschungsbericht (Relatório de Pesquisa). Eis um tema que faz pensar fortemente naquilo que Paul Gilroy mais tarde vai chamar de “Black Atlantic”. Die Palette, romance Beatnik iniciado em Sezimbra contra a literatura Beatnik, vai lhe fornecer por sua vez o dinheiro com o qual ele consegue financiar a maior parte das suas viagens para África, Caribe e América do Sul. Há, portanto, uma circulação constante e visível dos movimentos de recepção, produção e distribuição do material, que de certo modo é recebido numa afetuosa e sensível troca com o mundo. Essa circulação é acompanhada e dá o enquadre dos movimentos narrativos, articulando-os com os movimentos reais narrados e com a produção de teoria, que é marcado como resultado desses movimentos e, ao mesmo tempo, como uma tentativa de entendê-los. Podemos quase ver uma série de rodas interconectadas por bielas que não são tanto a máquina que puxa tudo adiante, mas sobretudo um modo de imagem ornamental em movimento, no qual se inscreve todo o texto e que fornece a articulação entre as diversas partes.

Novamente uma viagem, novamente Portugal e novamente Beatniks: Fichte conhece Höllerer numa estadia enquanto bolsista no Colóquio Literário de Berlin no ano de 1962. Durante essa estadia Fichte não repugna, mas se irrita levemente com o modo de sociabilidade dos autores alemães heterossexuais. Esta comunidade, que se considera de esquerda, crítica e progressiva, exclui de forma mais ou menos amena três pessoas: uma mulher austríaca, um gay judeu que escreve textos surrealistas e que não quer retornar do exílio norte-americano para Alemanha, e Fichte mesmo, que por causa do seu pai judeu que não chegou a conhecer teve que ser escondido pela mãe para protegê-lo dos nazistas durante os últimos anos da guerra. Fichte escreve sobre essa experiência no seu romance Die zweite Schuld (A segunda culpa) que deve fazer parte da história da sensibilidade, mas antes foi censurado durante cinquenta anos pela nitidez com a qual o comportamento dos envolvidos é descrito. Fichte tinha respeito por Höllerer, mas ao mesmo tempo pode-se imaginar nos termos de hoje a sua recriminação, ainda que formulada apenas parcialmente, contra ele e contra o entusiasmo demasiado leviano dos jovens literatos alemães em relação a aventureiros norte-americanos.

Por que Portugal? Há duas tradições da literatura de viagem na região do sul da Europa. A tradição italiana, que tinha a finalidade de fazer com que os bárbaros alemães se familiarizassem com o estado da arte do desenvolvimento cultural europeu. Tratava-se aí de demonstrar um respeito submisso ao passado italiano, enquanto o presente italiano era tido como deplorável em comparação à Weimar ou Frankfurt ou de onde os Goethes ou Seumes se originam. A outra tradição é a espanhola, onde os outros são as pessoas de cor, desmedidas e místicas, e os alemães são os românticos, que se sentem atraídos por uma suposta irracionalidade. Ambas as tradições chegaram ao fim após a segunda guerra mundial e o tempo dos nazistas, mas uma comparação entre viagens de esquerda e de direita rumo à Espanha ainda vale a pena antes e depois da guerra civil. O novo destino desejado, o último posto avançado mediterrâneo, que já nem está mais no Mediterrâneo, é Portugal. Fichte e Mau encenam essa viagem como uma viagem transcontinental. Ao invés de viajar com o trem noturno, que naquela época saia todas a noites de Kopenhagen via Hamburg para Paris, Gare Du Nord, para seguir depois da Gare d´Austerlitz com o expresso sul em quase 30 horas até Lisboa, Fichte e Mau decidem viajar numa cabina de um navio de carga – e a viagem de retorno se realiza meses mais tarde de carona. Portugal se torna um novo continente e o ponto de partida de quase 20 anos de realizações ininterruptas de viagens. Também se constituem aí as áreas de pesquisa aos quais Fichte se dedica ao longo dos próximos anos: 1) homossexualidade e globalidade, 2) psiquiatria e presos políticos, 3) a bicontinentalidade negra, também conhecida como The Black Atlantic.

A posição política de Fichte se diferenciava em diversos aspectos de seus contemporâneos de 1968. Para Fichte, o principal não era, como para a maioria, pensar as revoluções hedonistas e de estilos de vida em conjunto com uma revolução socialista mais ampla, o que era uma posição derivada da Guerra Fria, mas lhe era muito mais cara a questão dos direitos humanos. Mesmo se um anticapitalismo sustentado em argumentos econômicos é uma figura de pensamento recorrente em Fichte, ele nunca quis se aliar com quaisquer anticapitalistas realmente existentes. Pois: “Os revolucionários prendem os gays”, como ele havia anotado certa vez. Ter a segurança de não ser torturado e de não ter a liberdade civil roubada eram mais importantes para Fichte que a abolição da forma da mercadoria. Extremando a posição de Fichte, se poderia dizer que a crítica ao consumo, baseada nas sensibilidades ocidentais, desvia o olhar da crítica ao colonialismo. A maioria dos socialismos realmente existentes não podia garantir isso e tampouco a maioria dos regimes pós-coloniais na África e na América Latina. A ligação deles com seus precedentes ocidentais, a continuidade da opressão dos negros no Caribe, na América Latina e nos EUA, e dos gays em todas partes (das lésbicas ele fala raramente) foi o tema principal de Fichte. O fascismo para ele, ao contrário da maioria dos adeptos da Teoria Crítica, não era meramente um estágio do capitalismo. A história das clínicas e das instituições estatais e a perseguição da homossexualidade constituem uma peculiar tradição europeia que não deveria ser inscrita sem mais num conjunto genérico de todas as formas de injustiça e opressão. Fichte era considerado especialmente anacrônico e ingênuo quando ele propagava ideais pacíficos e demonstrava simpatia com figuras extremamente fora de moda como Gandhi. Hoje em dia essa inclinação pode ser considerada como uma forma pioneira da crítica de uma triple opression theory ou da Interseccionalidade da esquerda clássica – mesmo se Fichte provavelmente se demonstraria cético diante um modo interseccional de pensar conjuntamente as diversas formas de opressão. No mais, podemos ver nesse posicionamento político não somente uma das poucas posições proto-pós-coloniais no âmbito alemão, mas também tanto uma resistência contra a teoria quanto o esboço de uma teoria outra, nova. Em Fichte isso muitas vezes – por exemplo, nos diálogos com Senghor e Nyerere no volume Psyche da História da Sensibilidade – está bem próximo de acreditar de um modo um pouco simplista em uma especificidade africana e da diáspora africana que poderia superar as fraquezas do socialismo europeu, das instituições psiquiátricas europeias e da homofobia europeia, mas ele também se mostra reiteradas vezes cético diante de sua tendência de um essencialismo pró-afro. Nada é omitido, sínteses e conclusões são adiadas ao máximo e no final são anunciados modelos surpreendentes como o elogio da fofoca (Lob des Klatsch) e o elogio da zona (Lob des Striches). O que me faz voltar, para finalizar, aos três temas principais de Fichte:

1. Homossexualidade e internacionalismo, por exemplo no romance Eine glückliche Liebe (Um amor feliz).

Quando Fichte viajou para Sezimbra, em 1964, a homossexualidade ainda era ilegal, tanto em Portugal quanto na Alemanha, como na maioria dos países do planeta que não aderiram ao código penal francês. Isso não mudou nesses países tampouco nos anos 1970. Segundo Fichte, essa ilegalidade, no entanto, contribuiu para a formação de um sistema de comportamento internacional que lhe ajudou a conhecer e ganhar a confiança de pessoas de outros mundos e culturas mais ou menos rapidamente: a sexualidade se tornou um instrumento de pesquisa ainda independente da sua potencialização da sensibilidade. Num segundo momento a sexualidade ajudava a conhecer as pessoas de modo mais intenso e pessoal, mas a homossexualidade ilegal fornecia protocolos e modos de comportamento que permitiam superar certos tradicionalismos, regras de família, de casamento, da prostituição heterossexual. Tudo isso estaria bloqueado no caso de contatos heterossexuais.

Daí que o contato sexual internacional era, por um lado, mais fácil, mas por outro lado também mais intenso que qualquer contato oficial, possibilitando em conjunto com o companheiro co-marginalizado ver de modo sintético o material social de cada uma das sociedades excludentes. Por certo também havia problemas e perigos nesses contatos, que Fichte não deixa de nomear, pois obviamente as diversas dimensões de uma relação sexual sempre tem o potencial de dominação podendo fazer perder com isso precisamente o mais valioso do contato. Afinal, não se trata que eles se tornem meios utilitários para outra coisa, mas antes uma parte constitutiva de um modo de vida da sensibilidade, não submetendo a sexualidade a um cálculo de pesquisa. O maior perigo dessa heurística, no entanto, é o turismo em massa. Já no início de Eine glückliche Liebe (Um amor feliz) Fichte se queixa do guia turístico gay “Spartacus guide”: Com efeito, essa queixa é um anacronismo, pois o “Spartacus guide” ainda não existe em 1964, apenas em 1970. Em outro romance, o Versuch über die Pubertät (Ensaio sobre a Puberdade), Fichte fala do turismo sexual em massa e suas consequências culturais e médicas na correlação como o imperialismo e colonialismo. Em 1973 ele efetivamente faz advertências de uma epidemia sexual.

2. Prisões, Instituições, Direitos Humanos

Foi também em Portugal que inicia o interesse de Fichte pelo poder e a influencia da tortura. Ele visita várias vezes um conhecido presídio de tortura e investiga pela primeira vez as condições de vida num país no qual a tortura faz parte das ameaças diárias. Como ele não queria simplesmente condenar de modo abstrato algo que todos recusam teoricamente, ele reuniu textos e frases de turistas, de funcionários locais, de artigos de jornais alemães que minimizam a tortura e os expõe como frases paradigmáticas de uma gramática do silenciamento. Do mesmo modo ele procede mais tarde na África e no Brasil, mas sem se colocar na posição do acusador, mas reunindo frases típicas que querem reprimir a realidade da tortura, levando a cabo portanto o pior aniquilamento da sensibilidade. Na História da Sensibilidade, a tortura é o antagonista da sexualidade. Claro que podemos enxergar aqui algumas semelhanças entre Fichte e Foucault. De um lado, o interesse pelos discursos e suas condições como um tipo de matéria prima e não como documentos sempre já legíveis de uma consciência errada – o que fez com que A História da Sensibilidade fosse acusada como positivista. Por outro lado há em Foucault e Fichte um interesse em comum pelas instituições, prisões e psiquiatria. Ambos poderiam ter se conhecido. Foucault era amigo do escritor Rolf Italiaander na época em que trabalhou como agregado cultural no Consulado Francês em Hamburgo. Italiaander, que é uma geração mais velha que Fichte, já havia encenado em Hamburgo no ano de 1952 uma peça de teatro reivindicadora dos direitos homossexuais, com o título que soa foucaultiano: Das Recht an sich selbst (“Le droit à soi-même”). Ele também foi africanista e após a independência do Senegal se tornou cônsul do Senegal em Hamburgo. Fichte deve a Italiaander seu contato com Leopold Sédar Senghor. Na minha pesquisa da literatura de e sobre Fichte eu não encontrei nenhum material que indicasse se ambos se conheceram pessoalmente ou se chegou a ter formação teórica conjunta nesse mundo das belas artes dos consulados hanseáticos.

3. The Black Atlantic

Quando Paul Gilroy cunhou esse termo, Fichte já estava morto. Fichte começou a se interessar pelo estudo da vida da diáspora africana e pela “bi-continentalidade negra” em Portugal. E novamente ele persegue seu interesse coletando e registrando hábitos linguísticos, retóricas, modos de falar, nomes, etc., como ele apresenta no filme dos peixes portugueses [Der Fischmarkt und die Fische (1968)]. Percorre toda História da Sensibilidade o projeto de um léxico histórico da discriminação linguística, embora esse projeto não tenha sido nomeado assim. No centro do Atlântico Negro de Fichte estão sim conexões religiosas, a viagem dos ritos, deuses, etc., mas sempre tendo em vista uma psicologia da África e da diáspora africana. A já encenada bi-continentalidade na viagem para Portugal, sugerida pela passagem de navio e pelo transporte através do meio da água, indica finalmente para um último ponto heurístico decisivo na heurística literária de Fichte. A construção de proximidade e sensibilidade em seu sentido mais pleno corresponde à construção de distância, auto-alienação, displacement: é crucial colocar a água entre si mesmo e o lugar de chegada.

Talvez o leitor terá a impressão que eu apresentei uma imagem muito romântica, por ser aventurosa, ao evocar intensidades do escritor-pesquisador e sua resistência contra a teoria produtora da sua teoria, culminando no conceito da forma de vida como heurística. Porém, importa aqui ver essa forma de vida como uma contradição e como um antagonismo vivido e não como um transe unificador. Nesse sentido, é marcante o modo em que Fichte descreve sua própria vida sexual como composta de duas partes. Ele nunca gostou da expressão unificadora bissexualidade. Ele dizia ser um homem homossexual sendo essa homossexualidade não apenas sexo, mas uma forma de vida. Ao mesmo tempo ele dizia ser um homem com um casamento heterossexual feliz, sendo esse casamento – que de modo algum era assexual – também uma forma de vida. Ele dizia viver ambas e não poder sintetizá-la numa terceira. Isso se afasta de modo estranho das concepções contemporâneas de queerness. Mas, para habitar dois continentes é preciso, e Fichte faz questão disso, construí-los como dois continentes. Só assim podemos perceber sua distância como unidade do movimento.