Existem vários tipos de títulos:

Lucien Leuwen– você vai ler sobre alguém que se chama Lucien

Leuwen.

Ulysses.

Nora.

Ewé.

L’Éducation Sentimentale– você vai ler sobre um processo

que trata do desenvolvimento dos sentimentos, de uma

batalha no Combatimento di Tancredi et Clorinda.

Há títulos que brincam com as palavras:

Der Schatten des Körpers des Kutschers / A Sombra do Corpo do Cocheiro.

E com o sentido:

Como gostais.

E finalmente:

Ein Herz spielt falsch / Um coração sai do compasso

Uma maneira alusiva e dupla de falar, repleta de falso rigor e falsa provocação – uma atmosfera afetada.

Les Fleurs du Malmarca o começo da literatura moderna.

Segue:

Une Saison en Enfer

Frühlingserwachen/ O despertar da primavera

Also sprach Zarathustra / Assim falou Zarathustra.

Si le grain ne meurt

Morgens um acht ist die Welt noch in Ordnung / De manhã, às oito, o mundo ainda está em ordem.

A coleção com a faixa vermelho brilhante.

E também:

À La Recherche du Temps perdu com:

À l’Ombre des Jeunes Filles en Fleurs.

 

Sendo que, no entanto, simbolismos como Les Faux Monnayeurs já

se reduzem novamente à La Recherche.

E também não é preciso que o Tempo Perdido tenha sido utilizado como kitsch.

A obra de Proust é um ensaio sobre a passagem do tempo.

Perdu – sim, mas o que teria sido melhor? Passé? Écoulé?

A l’Ombre des Jeunes Filles en Fleurs, um título que quase como nenhum

outro soa pomposo, perfumado, duplamente redundante, mas que,

após pararmos para pensar melhor, se mostra como um título claro, conciso, simples:

Eu concebo raparigas como árvores em flor e descrevo os fatos

que ocorrem em sua sombra.

A concepção de raparigas como árvores é muito antiga e já que para

Proust se tratava de uma análise do inconsciente, ele apenas

está fazendo um uso preciso de seus recursos poéticos quando ele evoca uma antiga concepção mítica.

Tristes Tropiques é o título do livro de um autor que se refere a si mesmo às vezes como sociólogo, como etnólogo, mas na maioria das vezes como etnógrafo – ou seja, como um cientista que realiza suas descrições de povos sem a camisa de força teórica da antropologia, da etnologia ou da sociologia.

Et voici que je m’apprête à raconter mes expeditions– E eis que me preparo para contar minhas expedições, é o que Claude Lévi-Strauss anuncia no primeiro capítulo da edição francesa publicada em 1955.

Esta é uma declaração de intenções que está ausente na edição alemã de 1970, a edição que foi decisiva na recepção de Lévi-Strauss na Alemanha [1].

“A edição alemã se baseia – assim como a edição inglesa e americana – numa versão resumida do original autorizada pelo autor.”

 

L’IllustreBassade Madame de Scudéry também utiliza um adjetivo valorativo para designar o tema de seu romance no título.

Mas Illustre aparece aqui menos na qualidade valorativa que delimitativa, pois se trata do famoso Bassa Ibrahim e não de um outro qualquer. Nils Holgerssons underbara resa genom Sverige (A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia)apresenta a viagem maravilhosa (underbare resa) quase como pálida expressão retórica, e ao longo das surpresas inauditas desta viagem pelo mundo dos céus e dos sonhos da primeira infância o “maravilhoso” efetivamente aparece como uma convenção.

Tristesna combinação com trópicosé mais – se deixarmos de lado o apelo ao Nouveau Roman então em voga (Tropismesde Nathalie Sarraute foi publicado em 1939,

Les Gommesde Alain Robbe-Grillet em 1953): trópicos sujos, famintos, superpovoados, erodidos e secos caracterizariam fatos; trópicos horríveis, assustadores, etc. caracterizam a opinião de um escritor.

Tristesporém invoca um preconceito pejorativo – é quase tão depreciativo como “triste”.

Strauss quer, portanto, relatar-nos uma realidade desgastada que não provoca sua revolta ou a nossa, mas desprezo, uma pequena piedade relutante e, enfim, uma aceitação indiferente de tal realidade.

Em 1955 – um ano após Mendès-France finalizar a Guerra da Indochina – a Grande Nation (Charles de Gaulle ainda não é o presidente da Republique Française, munido de plenos poderes) se abaixa para condições deploráveis.

Em 1952 Jean-Paul Clébert, o clochard parisiense, publica Paris Insolite(apesar do duplo sentido enfadonho: desonrosa, desafiante Paris – desonrosas apostas) e mostra uma dialética muito diferente:

O livro descreve os tristes tropismos da situação habitacional em Paris:

No inverno de 1954 os sem-teto exibem no asfalto das ruas da cidade das Luzes os cadáveres dos sem-teto que morreram congelados de frio, forçando assim uma reação da opinião pública.

Em 1952 também foi publicado Géopolitique de la Faimna França, o livro do agrônomo brasileiro Josué de Castro sobre a fome no mundo – Strauss não o conhecia quando concebeu o título complacente, lastimoso do seu livro sobre o Brasil em 1955?

Pois assim como em Africa Addio, subjaz a esse título ainda um outro comportamento discursivo, uma outra concepção ideológica:

Os trópicos certamente não foram sempre tristes.

Eles recém se tornaram tristes.

Povos aos quais a independência foi concedida cedo demais ou povos que nunca receberam uma educação devida administram os trópicos de modo tão inferior que só poderia resultar em algo triste.

O estruturalismo já foi acusado de ter uma tendência restaurativa, conservadora – para mim se trata menos de avaliar uma filosofia, para mim se trata de um modo de fala, um modo de discurso, um modo de transportar fatos.

Tristes Tropiquesfaz uso assim como Götter, Gräber und Gelehrte [2], Rolls Royce e Rowohlts Rotations Romane [3], do procedimento poético da aliteração, ou do que se entende vulgarmente por aliteração.

Conhecemos a origem deste recurso poético e seus excessos – até chegar na teutomania no simbolismo.

Eu não sei o que leva um etnógrafo a utilizar este procedimento em 1955, nem o que leva um tradutor à ousadia de germanizá-lo em 1970.

Mas mesmo se a seca etnográfica devesse ser aqui estilizada rilkeanamente para a sombra de jovens raparigas em flor – esse título chega a ser impressionante, poético, belo apenas num sentido restaurativo:

Tr.. Tr..?

O livro de Claude Lévi-Strauss, que foi publicado sem categorização de gênero pela editora

Plon na coleçãoTerre Humaineem 1955, é uma mistura de memórias de viagem, pesquisa etnológica, relato de vida e invocação lírica, cujos diversos componentes parecem adentrar-se arbitrariamente uns nos outros. Certamente é nova a tentativa de revestir a descrição de viagens entre índios sul-americanos de paralelos com a Ásia para assim satisfazer a exigência  de dizer algo sobre os trópicos em geral e alcançar uma liberdade de circulação quase poética.

Uma segunda característica são as dicotomias e contradições às vezes intencionais, outras vezes involuntárias.

O livro é tido como fanal de uma Ciência do Homem afastada das Ciências da Natureza desde então, pertencendo, junto com Freud, Artaud. Sartre, Bataille, Leiris, Lacan e Foucault, ao repertório de uma esquerda mais imaginativa; o livro foi recentemente selecionado para compor a lista dos 100 livros da Biblioteca “Zeit“[4]; e George Bataille elogiou-o como un livre humain, un gran livre. Peu d’ouvrages soulèvent des problèmes aussi vastes, aussi fondamentaux.

Tristes Trópicos – o título deste livro se refere à grande devastação das florestas no Brasil. É o relato de uma viagem de aventura aos escombros de culturas estranhas rodeadas de tristeza no Mato Grosso, vivenciada e descrita com força poética – eis o que diz a sinopse da edição alemã.

Será que estou sendo justo ao atribuir à Claude Lévi-Strauss, a partir do título do livro, sacanagem e sentimentalismo?

Talvez ele realmente ficou afetado e não queria expressar outra coisa que as circunstâncias que o levaram à tristeza no Brasil?

 

Na primeira página da edição francesa:

.. mais cette scorie de la mémoire:  „A 5 h 30 du matin, nous entrions en rade de Recife tandis que piaillaient les mouettes et qu’une flottille de marchands de fruits exotiques se pressait le long de la coque“, un si pauvre souvenir mérite-t-il que je lève la plume

pour le fixer?

.. mas essa escória da memória – “Às cinco e meia da manhã, entrávamos na baía de Recife, enquanto pipiavam as gaivotas e uma flotilha de vendedores de frutas exóticas espremia-se ao longo do casco” – uma recordação tão pobre merece que eu erga a pluma para fixá-la?

O etnógrafo ergue a pluma para fixar pobres recordações!

A capacidade de memória pode ser pobre.

O que foi rememorado por Claude Lévi-Strauss também.

Mas será mesmo a baía de Recife um pobre objeto da memória? As declarações sobre os famintos de Recife que Josué de Castro publicou em francês três anos antes eram tudo menos pobres; elas provocaram as primeiras reflexões sobre a fome no Terceiro Mundo.

Josué de Castro talvez também não tenha erguido uma pluma – no calor de Recife ele deve ter pego uma caneta esferográfica.

 

Quais objetos de memória e que tipo de memória pareciam à Lévi-Strauss suficientemente relevantes para serem fixadas nas 169 páginas da introdução? Vejamos:

19: Je voudrais aujourd’hui qu’il m’ait été donné, voici vingt ans, d’apprécier à sa juste valeur le luxe inouï, le royal privilège qui consiste dans l ‚occupation exclusive, par les huit ou dix passagers du pont, des cabines, du fumoir et de la salle à manger des premières, sur un

bateau conçu pour accommoder 100 ou 150 personnes.

Lévi-Strauss considera esta declaração relevante a tal ponto que é com ela que decide iniciar a edição abreviada de sua obra:

11: Gostaria, hoje, que tivesse sido capaz, há vinte anos atrás, de apreciar devidamente o valor daquele privilégio inaudito, verdadeiramente de realeza, que consistiu no fato de que um grupo de oito a dez passageiros teve à disposição não apenas o convés e os camarotes, mas também o salão de fumar e a sala de jantar da primeira classe de um navio concebido para acomodar de 100 a 150 pessoas [5].

Em 1970 talvez uma declaração dessas poderia ser retocada a favor da luta de classes.

A declaração seguinte, que está ausente na tradução ao alemão [6], já não chega a permitir tal interpretação:

O outro (camarote) seria dividido por quatro homens, entre os quais eu me incluía – um exorbitante favor decorrente da impossibilidade que M.B. sentiu, que aqui seja agradecido, de transportar um de seus antigos passageiros de luxo como gado.

Página 27:

Só três pessoas foram autorizadas a descer a terra… eu por um especial obséquio feito ao comandante pelo Controle Naval, pois havíamos nos reencontrado como velhos conhecidos…

Página 30:

Felizmente, nessa época ainda havia no coração de todo funcionário brasileiro um anarquista adormecido, mantido vivo por esses restos de Voltaire e de Anatole France que, mesmo nos confins da selva, continuavam em suspensão na cultura nacional (“Ah, o senhor é francês! Ah, a França! Anatole! Anatole!”, exclamava transtornado, abraçando-me, um velhote de um povoado no interior e que até então nunca encontrara um de meus compatriotas).

Página 32:

. . minha situação na Martinica melhorou graças à intervenção de um alto funcionário das Ponts et Chaussées . .

Página 35:

. . pude visitar a ilha, na amável companhia do sr. Christian Belle, então cônsul-geral . . [7]

Página 50:

Célestin Bouglé, então diretor da Ecole Normale Supérieure . .

Página 51:

. . Eu ouvi da boca do embaixador brasileiro em Paris . .

Página 62:

Por volta dos meus dezessete anos, fui iniciado no marxismo por um jovem socialista belga, que hoje é embaixador de seu país no exterior . .

Finezas que estão todas ausentes na edição alemã [8].

Mas não falta (na página 88):

Nessas florestas que se estendem ao longo das duas margens do rio Tibagy, a cerca de mil metros acima do nível do mar, tive meu primeiro contato com os índios, quando acompanhei em sua visita um chefe de distrito do Serviço de Proteção aos Índios [9].

No entanto, no original consta: sauvages – selvagens ao invés da palavra índios. (Página 174)

Como Lévi-Strauss mesmo diz na página 66:

Tais são considerações bem longas e bem inúteis!  [10].

Tal ostentação de nomes não acontece sem ares de lirismo e, inclusive, de expressionismo:

O capítulo La Fin des Voyages, que ambiguamente faz referencia tanto ao Final das Viagens quanto à Finalidade das Viagens, começa assim:

Odeio as viagens e os exploradores. E eis que me preparo para contar minhas expedições.

173:

Campeurs, campez au Paraná. Ou plutôt non : abstenez-vous.

Campistas, acampai no Paraná. Ou melhor, não: abstende-vos.

– Consta no original, mas falta na edição alemã [11]

Lévi-Strauss convoca classes inteiras, sociedades inteiras e depois as envia de volta:

391:

Il eût fallu que la société entière confessât la supériorité des montagnes et m’en reconnût la possession exclusive – esse trecho foi considerado suficientemente relevante para ser publicado também na versão resumida. Em alemão lemos então:

Se fosse por mim, todos deveriam proclamar a superioridade das montanhas, mas deixando-as ao mesmo tempo como propriedade exclusiva a mim.[12]

 

Não há lugar para a aventura na profissão do etnógrafo, página 13 – mas quase não há sigla mais usada por Claude Lévi-Strauss que “aventura”:

30: . . eu passara por aventura semelhante

92: O fim da aventura

182: Eu estava pronto para as verdadeiras aventuras.

301: Depois disso a aventura começaria.

305: Nada se compara com as aventuras.

383:. . essa aventura iniciada no entusiasmo deixava-me uma impressão de vazio.

435: Minha vida aventurosa . .

Para quê?

Para quê as ignorâncias vaidosas:

16: Não me lembro mais se era na quinta-feira ou no domingo de manhã. – Um francês que não sabe distinguir um domingo de manhã de uma quinta-feira?

23: O navio transportava sei lá eu que material clandestino.

32: Padres de sei lá eu que ordem.

45: En roulant mes souvenir dans son flux, l’oubli a fait plus que

les user et les ensevelir. Le profond édifice qu’il a construit de ces

fragments propose à mes pas un équilibre plus stable, un dessin

plus clair à ma vue.

Em alemão, lemos em 1970:

12: No fluxo do esquecimento, essas (as recordações) não apenas foram desgastadas e enterradas, mas os fragmentos se reuniram numa estrutura que oferece consistência à meu procedimento e um plano à minha visão.[13]

O esquecimento, assim eu resumo o original, oferece um equilíbrio estável ao procedimento de Strauss e um plano seguro à sua visão.

. . il a fallut vingt années d’oubli pour m’amener au tête-à-tête

avec une expérience ancienne dont une poursuite aussi longue

que la terre m’avait jadis refusé le sens et ravi l’intimité.

Na edição alemã consta na conclusão desse capítulo:

Foram necessários vinte anos de esquecimento para conseguir entrar em diálogo com uma experiência que outrora persegui até o fim do mundo, mas cujo sentido e significado mais íntimo me foram recusados.[14]

O alto funcionário da Ponts et Chaussées?

O diretor da École Normale Supérieure?

O embaixador belga?

Os funcionários do SPI (Serviço de Proteção aos Índios)?

Duvido que após Freud e Proust alguém ainda possa ser tão diletante em relação ao esquecimento.

Página 56:

Or, mon esprit présente cette particularité, qui est sans doute une

infirmité, qu’il m’est difficile de le fixer deux fois sur le même

objet.

 

Ora, meu espírito apresenta uma peculiaridade, que é de certo uma inaptidão: a dificuldade de fixar-se duas vezes no mesmo objeto.

À tal passagem sobre o pensamento segue, na página seguinte, um insulto ao povo da Idade da Pedra:

57: J’ai l’intelligence néolithique.

Isso é dito com leveza e simpatia, e provavelmente deve evocar também um efeito poético.

De fato, e Strauss calculava isso bem, quando dá a entender que não consegue fixar com facilidade seus pensamentos no mesmo objeto duas vezes, ele consegue deixar impressionada a direita e a esquerda.

E linhas.

Quanto tempo um intelectual na França em 1955 deve ter tido à disposição e quão cevado deve ter sido financeiramente?

Linhas e tempo que faltaram à Strauss na sua descrição de povos indígenas – e no aprendizado das línguas indígenas.

O inicio do capítulo da página 161 está ausente na edição em alemão:

Sans que j ‚en aie formée le dessein, une sorte de travelling mental

m’a conduit du Brésil central à l’Asie du Sud . .

Sem que fosse minha intenção, uma espécie de travelling mental conduziu-me do Brasil à Ásia do Sul . .

A Claude Lévi-Strauss foram confiados jovens, trabalhadores, verbas – gostaria de saber o que teria acontecido com o funcionário bancário Kafka se ele teria manifestado por escrito tais declarações sobre sua sanidade.

Strauss não omite nada, nem que ele fica cantarolando Chopin, nem que ele gosta de escalar montanhas, nem que ele faz desenhos surrealistas e que esboça uma tragédia romana.

Ele fornece Feuilles de Route e poemas para o jornal de fantasias.

Uma poesia com o cachimbo na boca.

Página 70:

Plus haut encore dans le ciel, des diaprures blondes se dénouaient,

en sinuosités nonchalantes qui semblaient sans matière et d’une

texture purement lumineuse.

Como Strauss foi inteligente o suficiente para não insistir nisso em 1970, devo tentar traduzir essas linhas sem sacanagem.

Ainda mais alto no céu, matizes loiros desfaziam-se em sinuosidades que pareciam sem matéria e com uma textura puramente luminosa.

Página 98:

. . un fragment de lune rougeâtre qui passe et repasse et disparait

comme une lanterne errante et angoissée.

é embelezada na edição alemã para:

. . Um pedaço de lua avermelhada . . que desapareceu novamente como um

angustiada alucinação.

Na verdade, é dito:

. . Um avermelhado fragmento (!) da lua, que vai e vem

e desaparece como uma lanterna errante e cheia de angústia.

Isso numa época em que havia na França a prosa de um Alain Robbe- Grillet.

Página 101:

Les bananeries qui la couvrent sont du vert le plus jeune et le plus

tendre qu’on puisse concevoir; plus aigu que l ‚or vert des champs

de jute dans le delta du Brahmapoutre avec quoi mon souvenir

aime à le réunir; mais cette minceur même de la nuance, sa gracilité

inquiète comparée à la paisible somptuosité de l’autre, contribuent

à créer une ambiance primordiale.

A tradutora da editora Kiepenheuer também não conseguiu atenuar completamente estas formulações:

45: Os bananais que cobrem a planície são do verde mais viçoso e mais suave que se possa imaginar; mais luminoso do que o ouro verde dos campos de juta no delta do Bramaputra com os quais se confundem na minha lembrança . .

Lembrança?!

Uma inofensiva fabulação espontânea.

Inofensiva?

Página 173: Une race plus sage et plus puissante que la nôtre,

mesmo na edição alemã aparece como:

.. uma raça mais sábia e mais poderosa do que a nossa ..

Na passagem final do livro encontramos:

adieu sauvages! Adieu voyages!

Adeus selvagens! Adeus viagens!

Será que a criatura sensível o fez realmente apenas em virtude da rima em francês?

Mas conhecemos constrangimentos deste tipo também em Heisenberg e

Lorenz. Strauss não é St. John Perse nem é o caso de Tristes Tropiques tornar-se Anabase.

Tornou-se o livro que fez o estruturalismo virar moda.

O que Lévi-Strauss diz de seu método?

Página 50: J’ai appris que la vérité d’une situation ne se trouve pas

dans son observations journalière, mais dans cette distillation patiente

et fractionnée que l’équivoque du parfum m’invitait peut-être

déjà à mettre en pratique, sous la forme d’un calembour

spontané, véhicule d’une leçon symbolique que je n’étais pas à

même de formuler clairement.

A tradutora ao alemão foi esperta o bastante para cortar esta declaração.[14]

Aprendi que a verdade de uma situação não se encontra em sua observação cotidiana, mas nessa destilação paciente e constantemente interrompida que o equivoco do perfume talvez já me convidasse a pôr em prática na forma de um trocadilho espontâneo que representa o veículo de uma lição simbólica que eu nem mesmo estava em condições de formular claramente.[16]

Página 62: Comprendre consiste à réduire un type de réalité à un

autre.

Compreender consiste em reduzir um tipo de realidade a outro. –

Eu acho que esta afirmação não poderia estar faltando na edição alemã, já que ela não apenas representa – em 1955 – uma justificação do colonialismo francês e assim das torturas na Algéria, mas também oferece ao colonialismo uma base epistemológica ideal e consegue dar o golpe de mestre para o álbum da poesia, chegando ao ponto de apresentar a tortura como esforço de compreensão.

A tortura do funcionamento das universidades francesas.

A tortura da etnologia.

E de todos os colonialismos.

Strauss não sabia isso?

Sabia sim.

Apenas uma página depois encontro o seguinte:

Elle (l’ethnographie) tranquillise cet appétit inquiet et destructeur

dont j’ai parlé, en garantissant à ma réflexion une matière pratiquement

inépuisable fournie par la diversité de mœurs, des coutumes

et des institutions.

Ela (a etnografia) acalma esse apetite inquieto e destruidor a que me referi, garantindo à minha reflexão uma matéria praticamente inesgotável, fornecida pela diversidade dos costumes, dos usos e das instituições. –

Como George Bataille chamava o livro:

Humano.

Se eu ignorasse o fato de que Strauss aqui está confundindo etnografia e antropologia e que comete a mesquinhez de reduzir toda etnografia à tal padrão fascista – mesmo Spieth, também Frazer, também Malinowski –, ainda assim Lévi-Strauss afirma, dez anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, que povos, pessoas, garantem matéria praticamente inesgotável, que é fornecida . .

Um apetite inquieto e destruidor.

Quais são os fatos que fazem um etnógrafo?

O leitor também o apreende na edição alemã, na página 199:

Um ano depois da visita aos Bororo, todas as condições necessárias para fazerem de mim um etnógrafo estavam satisfeitas. Obtive a bênção de Lévy-Bruhl, Mauss e Rivet, realizei uma exposição de minha coleção numa galeria do Faubourg Saint-Honoré, ministrei palestras, conferencias e tinha escrito artigos. –

Em nenhum lugar a relação da nação mais inteligente do mundo com o mundo chega a ser desmascarada tão bem como aqui no seu cientista mais sensível.

Na página 330 a versão alemã distorce:

Mas antes que essa cultura desaparecesse para sempre, me aguardava uma surpresa.

No original é dito:

415: Pourtant, vers la fin de cette liquidation mélancolique de l’actif d’une culture mourante, une surprise m’était réservé.

Entretanto, lá pelo final desta liquidação melancólica do ativo de uma cultura agonizante, estava-me reservada uma surpresa. –

Um urubu que quer ser entretido.

Liquidar melancolicamente pessoas enquanto parte ativa de uma cultura.

Liquidar, devo insistir, significa tornar liquido e executar – é o termo que acompanhou os doze anos do fascismo nazi e, precisamente, com esse duplo sentido reempregado por Strauss.

Strauss não tinha mais noção dos dentes de ouro de Auschwitz em 1955?

Mas talvez o método do estruturalismo lévi-straussiano não se deixa apreender por essas breves citações sobre etnografia, das quais se toma nota após repetidas leituras de Tristes Tropiques. Onde esse procedimento é resumido, de modo poético, cientifico ou particular, entre “Feuilles de Route” e “Parties de Corps”?

Talvez na página 61, quando ele menciona que sua trajetória intelectual foi influenciada por seus interesses geológicos:

Que le milacre se produise, comme il arrive parfois; que, de part et d’autre de la secrète fêlure, surgissent côté à côté deux vertes plantes d’espèce s différentes, dont chacune a choisi le sol le plus propice; et qu’au même moment se devinent dans la roche deux ammonites aux involutions inégalement compliquées, attestant à leur manière un écart de quelques dizaines de millénaires: soudain l’espace et le temps se confondent: la diversité vivante de l’instant juxtapose et les perpétue les âges. La pensée et la sensibilité accèdent à une dimension nouvelle où chaque goutte de sueur, chaque flexion musculaire, chaque halètement deviennent autant de symboles d’une histoire dont mon corps reproduit le mouvement propre, en même temps que ma pensée en embrasse la signification. Je me sens baigné par une intelligibilité plus dense, au sein de laquelle les siècles et les lieues se répondent et parlent de langages enfin réconciliés.

Eu não entendo por que a edição alemã suprime este texto conciso sobre diacronia e sincronia, este resumo do novo método do estruturalismo, este exemplo de uma antropologia poética – e por que Claude Lévi-Strauss o retirou da sua versão resumida:

Que se produza o milagre, como ocorre de vez em quando; que, de um lado e outro da rachadura secreta surjam par a par duas verdes plantas de espécies diferentes, cada uma escolhendo o solo mais propício; e que ao mesmo momento se mostrem na rocha duas amonites de involuções distintamente complicadas, comprovando a seu modo uma distância de algumas dezenas de milênios: de repente, o espaço e o tempo se funde. A diversidade viva do instante se justapõe e perpetua as eras. O pensamento e a sensibilidade atingem uma dimensão nova, onde cada gota de suor, cada flexão muscular, cada arfar também se torna símbolo de uma história cujo movimento próprio meu corpo reproduz, e cujo significado, ao mesmo tempo, meu pensamento abarca. Sinto-me banhado numa inteligibilidade mais densa, em cujo seio os séculos e os lugares se respondem e falam línguas enfim reconciliadas.

 

Me parece uma citação justa.

Mesmo assim, ela tanto desmascara o autor quanto o justifica.

Um tal axioma para procedimentos científicos fica sempre vazio nas imediações, do mesmo modo que os axiomas matemáticos e logísticos.

Só na prática é que fica claro o que eles valem.

Na prática deste livro de Strauss isso significa que para a apresentação estrutural de ocorrências no Brasil ele recorre a condições de vida de pessoas na Ásia e que para o entendimento das estruturas dos Bororo da América do Sul ele deve tornar a história asiática inteligível.

Isso seria, contudo, uma Intelligibilité Nouvelle e Plus Dense.

O perigo: que a visão dupla se torna um estrabismo, que a empiria etnográfica adormeça como nas viagens de estudos do Dr. Tigges e que a pesquisa histórica exata degenere para panoramas à la Malraux.

Nas últimas páginas o livro de Claude Lévi-Strauss se lança em formulações cujo escopo não guarda mais nenhuma proporção com seu peso:

463: Sente-se aqui novamente a dificuldade do islã para pensar a solidão.

466: a bondade do budismo, o desejo cristão do diálogo, a intolerância muçulmana.

Escrito em 1955!

472: O homem cria algo verdadeiramente grande só no início.

473: Foi então que o Ocidente perdeu a sua oportunidade de permanecer mulher.

Resumées de 1955, completamente ausentes na edição alemã.

Como sempre, essas conclusões geralmente se baseiam em premissas duvidosas.

Imprecisões podem ser encontradas em todas as páginas do livro.

Aqui alguns exemplos:

Na página 35:

Bertrand Goldschmidt . .

. . explicou-me certa noite o princípio da bomba atômica e revelou-me, estávamos em maio de 1941, que os principais países andavam empenhados numa corrida científica que garantiria a vitória àquele que chegasse em primeiro lugar.

Strauss sabia aí mais que Bohr e Einstein.

Porque só em novembro de 1941 Nils Bohr levou a famosa garrafa de água pesada de Copenhague aos Estados Unidos para alertar Roosevelt da bomba atômica dos alemães.

Os blefes de Heisenberg na Dinamarca ocupada tinham convencido Bohr equivocadamente de que os alemães já estavam prestes a fazer uso de suas armas nucleares.

A corrida nuclear só começou após Bohr ter alertado os EUA.

Infundados – e tendenciosos – são os dados e números sobre o Haiti que Strauss dissemina na página 81 e que foram reproduzidos sem nenhuma crítica na edição alemã em 1970:

Enquanto os nativos da ilha Hispaniola . . dos quais existiam em 1492 (ou seja, no descobrimento de Colombo) aproximadamente cem mil, cem anos depois havia apenas cerca duzentos . .[17]

O “cerca” foi urdido no alemão.

De modo geral há um consenso de reduzir os 3 milhões de indígenas que Las Casas indica para o ano do descobrimento para um milhão.

Mas na mais recente e mais rigorosa história de Haiti, a de Heinl, o autor escreve:

Probably exaggerating, Bishop Bartolomé de las Casas put the Indian population at 3 million when Columbus came . .

In 1550 only 150 Caribs could be found.

Strauss reduz a população indígena para um trigésimo do que registrou Las Casas, nomeado pela coroa espanhola – em cinquenta anos mais de um milhão de índios foram assassinados e não, como atenua Strauss, em cem anos menos que cem mil.

Esse pode ser o procedimento de um cientista que escreve um livro sobre os índios?

Na página 97 Strauss faz enunciados estruturalistas sobre desenvolvimento urbano:

. . em 1935 o lugar ocupado por cada um na hierarquia social media-se pelo altímetro: tanto mais baixo quanto mais alto fosse o domicilio.

Uma conclusão elegante – se ao menos pudesse ter fundamento:

Pois há no Rio o bairro colonial, burguês, de Santa Teresa, o Largo do Boticário, o Alto da Boa Vista –todos eles situados em partes altas da cidade – e pouco antes do Rio se situa, a 300 metros de altura, a rica cidade Petrópolis, onde o imperador D. Pedro II teve sua casa de veraneio.

Imprecisões e ignorância, com as quais se mistura condescendência:

58: No Brasil, que produziu com Euclides da Cunha, Oswaldo Cruz, Chagas e Villa-Lobos poucos, mas brilhantes estudiosos, a educação e a ciência eram até recentemente um brinquedo para os ricos.[18]

No original consta réussites individuelles no lugar de “estudiosos” – poucos?

Strauss omite os nomes de Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Gilberto Freire, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Edison Carneiro etc.

La culture, como consta no original no lugar de educação e ciência – um brinquedo para os ricos?

As escolas de samba, o carnaval, o candomblé, a arquitetura das igrejas, a música brasileira não são cultura? A cultura do povo não vale nada para Strauss?

Na página 62: Espero que aqueles entre meus encantadores estudantes, hoje colegas estimados, que lançarem os olhos neste livro, não sintam rancor. Quando penso neles, então me vem à lembrança segundo o costume deles seus prenomes que soam estranhamente barrocos aos ouvidos europeus, mas cuja diversidade exprime o privilégio que foi ainda de seus pais, de poder fazer livremente escolhas a partir da abundância de uma história muito antiga – Anita, Corina, Zenaide, Lavinia, Thais, Gioconda, Gilda, Oneide, Lucilia, Zenith, Cecilia, Egon, Mario-Wagner, Nicanor, Ruy, Livio, James, Azor, Achilles, Decio, Euclides, Milton. Rememoro sem nenhuma ironia esses inicios balbuciantes.

O que confere a Strauss o direito de citar esses nomes ironicamente?

Ele apenas está registrando e documentando aqui nada mais do que a sua própria necedade

e ignorância:

Estranhamente barrocos? Anita? Egon? Ruy, James?

Ele desconhece o Tempo Reencontrado de Proust, escrita após a Primeira Guerra Mundial?

Como se chamam os parentes e amigos de Monsieur de Charlus:

Hannibal de Breauté.

Boson de Talleyrand.

Sosthène de Doudeauville.

Charlus ele mesmo: Palamède.

64: . . num país onde a diversidade de raças e – ao menos até recentemente – a quase completa ausência de preconceitos levou a misturas de todo tipo.

Eis a lenda oficial.[19]

Será que Lévi-Strauss nunca preencheu um formulário de hotel com o item cor?

Será que ele nunca viu no jornal os anúncios de empregos, onde se exige boa aparência – cor de pele clara?

Quando o divórcio foi legalizado no Brasil?

Página 79: As chuvas de inverno se encarregariam de decompor os troncos de árvores em húmus fértil . .

Talvez um antropólogo seja dispensado de um melhor conhecimento dos estudos agrícolas – as compilações sobre agricultura do poeta Thomas Mann também eram vacilantes –, mas então o antropólogo deveria se abster de fazer afirmações sobre húmus.

A formação de húmus é um processo microbiológico muito complexo que depende da assim chamada fermentação.

Pois bem, existem condições bem diferentes que provocam a fermentação: a fermentação da sombra, a fermentação do calor, a fermentação da geada, a fermentação de fertilizantes – o único que nunca existe é a fermentação de chuva; a chuva de qualquer tipo não só impede a formação de húmus, mas ao inundar varre todo húmus do solo.

Talvez é pedir demais de um cientista da área de humanas de realizar a regrinha de três na página 166 corretamente – mas de um editor cientifico da Plon?

Na página 163 Strauss introduz o conhecimento de sistemas fechados altamente complexos sem experiência alguma:

De um bazar oriental conhece-se tudo antes de tê-lo visitado, exceto duas coisas: a densa aglomeração dos visitantes e a sujeira. Ambas são inimagináveis, é preciso a experiência para senti-las. –

O absurdo passa para a mentira, para o racismo nu e cru.

Lévi-Strauss não gosta de gays, isso ele documenta nas páginas 27, 52.

Na página 300 nenhuma piadinha de mal gosto é descartada se serve para sua orientação:

Além disso, o bispo de Cuiabá impusera-me um dos seus protegidos como cozinheiro: após alguns dias percebemos que se tratava de um “veado branco”, ou seja, um pederasta, padecendo de hemorroidas a ponto de não poder montar a cavalo.

(218).

Um livro humano.

Soa correto, embora não seja novo, quando Strauss exclama:

Quem diz homem diz linguagem, e quem diz linguagem diz sociedade.

(450) Suas declarações sobre o Brasil se fundamentam num conhecimento do português que na França não devem ter sido verificadas por nenhum especialista, e os erros ortográficos, que passaram batido na editora Plon, estão todos presentes também na edição alemã.

Uma ortografia individual é algo criativo; quando um estruturalista escreve gallinha, assucar, favellaisto quer dizer que a estrutura da língua portuguesa lhe permaneceu inacessível.

Ao contrário de outras línguas romanas ela não duplica as consoantes após uma vogal curta.

155: Desse modo eu aprendi a conhecer a língua pitoresca do Sertão, que, por exemplo, para o nosso pronome indefinido dispõe de toda uma coleção de expressões – homempessoa ou homem; camarada, camarada, colega(sic! para colega também na versão em alemão),  colega, negro, o negro, tal, esse ou aquele,  fulano, qualquer um e assim por diante.[20]

Essas expressões não são típicas para a língua do Sertão. Elas são usadas por qualquer brasileiro e, inclusive, por qualquer português.

Com tal domínio do português Strauss permite que as línguas indígenas lhe sejam traduzidos por índios que geralmente ainda falam menos português do que ele.

111: Durante nossa breve estadia evidentemente não foi possível aprender a língua (Caduveo) ainda que o português dos nossos anfitriões fosse muito precário.

Strauss também não domina o Bororo:

159: Por intermédio de gestos lhes explicamos que gostaríamos de visitar a aldeia . .

237: A edição alemã embelece: . . me empenhei em aprender o Nambikwara.

Strauss admite no original, que também não conseguiu avançar muito no aprendizado dessa língua:

318: J ‚apprenais donc un Nambikwara rudimentaire.

E o Tupi-Kawahib?

Na página 299: Sem conhecer o idioma e sem dispor de um intérprete, consegui apreender ao menos certos aspectos sociais e intelectuais do grupo . .

Os erros do etnógrafo são suas virtudes!

Na página 300: Os índios – assim Suzanne Heintz traduz em 1970 – estavam dispostos a me explicar seus costumes e crenças, mas eu não falava a sua língua.

Uma das poucas declarações honestas de Strauss, que ele, no entanto, desmente poeticamente vinte linhas mais tarde.

Que fale, então, o chão, à falta dos homens, que se recusam?

Os índios teriam se recusado? Lévi-Strauss foi demasiado preguiçoso para aprender a sua língua.

Suzanne Heintz percebeu isso e, tendo em vista o departamento de vendas da editora Kiepenheuer, traduziu assim:

Pois na falta dos homens, a quem eu não entendo, deixarei o chão falar.

Apesar desse fato, Strauss diz na página 329: As mulheres se concebem como coletividade.

Eu quero saber qual o método para, sem dominar uma língua, ser capaz de manifestar algo pertinente sobre pensamentos nesta dimensão discursiva.

É o mesmo método que habilita jovens estruturalistas e psicólogos a fazerem afirmações sobre o complexo de Édipo no Senegal, sem entender sequer uma única língua africana. Por outro lado, esta falta de compreensão capacita os estruturalistas e psicólogos a executarem diariamente centenas de choques elétricos sem as mais mínimas precauções médicas nos corredores de hospitais.

 

A relação perturbada de Homme e Langage, de Langage e Société chega a afetar até mesmo o francês.

Não estou me referindo ao pomposo Passé Simples :

Nous fûmes reduits.

Nous roulâmes, que inclusive em 1955 só se podia usar em conversas disparatadas – ou o modo emendado de converter processos em discursos:

. . sauterelles, qu’ils avaient passé la journée entière à récolter.

Isso é burocratês, como muita coisa mais.

Me refiro à problemas lógicos:

314: . . paraît à peine croyable . .:

algo parece de uma maneira ou de outra

algo é pouco acreditável.

Um fato “que parece pouco acreditável” é uma afirmação quase sintática, uma palavra-espantalho.

A confusão reiterada entre sociologique e social – que tem seu paralelo na Alemanha na confusão frequente entre psíquico e psicológico – leva à uma afirmação interessante em Strauss:

Na página 261 é com razão que a tradução alemã corrige o autor:

Eles, os Nambikwara, tinham assumido o símbolo sem compreender o seu significado e isso tendo em vista uma finalidade mais social que intelectual.

No entanto, no original Lévi-Strauss escreve:

– e isso tendo em vista uma finalidade sociológica.[21]

Isso resulta no original para a confissão monstruosa:

Eles tinham assumido o símbolo sem compreender o seu significado e isso tendo em vista uma finalidade mais sociológicaque intelectual. Não se tratava obviamente de conhecer, reter ou compreender, mas de aumentar o prestigio e a autoridade de um individuo – ou de uma função.[22]

Quem assume aqui palavras, isto é, símbolos, sem compreender seu significado?

Onde a sociologia, e isso de modo grotesco através dos mecanismos da análise freudiana, teria se auto-explicado mais claramente do que aqui?

 

Adjetivos impensados e irrelevantes abarrotam o livro todo:

O Corpo é robuste[23],

a voz rouca ou melodiosa,

a carta atenciosa ou discreta,

o conseiller déférent ou glacial,

o gesto navré,

a atitude amável,

a atitude discreta e cortês,

o olhar amigável,

os alunos são charmants,

a resolução virile,

a gravité charmante,

a fraternité discrète,

o conservatisme remarquable,

o aspecto característico,

os espíritos sedutores e poéticos,

o rio é risonho,

a semana agradável,

os nativos são graciosos,

e a passagem é exaltant . .

e assim por diante em cada página.

 

Essas insignificâncias, no entanto, preparam um outro comportamento discursivo:

Pois os trópicos devem ser tristes, mas eles não são analisados ao longo do livro no que diz respeito à miséria, e os mecanismos de tristeza do autor não são expostos – o triste vai ser sugerido através de palavras-fetiches:

As lembranças são pobres (14).

Os nativos são muito sujos e mal barbeados (34).[24]

Uma tribo foi reduzida a um punhado de desarraigados miseráveis (39).

Os mais pobres viviam empoleirados nos morros, nas favellas(sic!), onde a população de negros, vestidos de trapos bem lavados, inventavam ao violão essas melodias alegres que, na época do Carnaval, desceriam das alturas e inundariam a cidade com ritmos alegres.

A tradução alemã dissolve habilmente o racismo e o paternalismo deste relato:

Strauss escreve:

Miséreux – pobres coitados.[25]

Noirs – pretos.

Lessivées – enxaguar, ao invés de laver – lavar.

Ele nunca esteve numa favela e observou a elegância horrenda, com a qual os afroamericanos do Rio se vestem!

Mas Strauss vê apenas as populações que, prejudicados pela malária e pela ancilostomíase, se extinguem (128).

Camponeses em trapos (129).

A vida num lenço (159).

Os processos de pesca que foram pobremente imitados dos brancos (197).

Miserável lugarejo (197).

Camponeses em trapos (202).

Nenhuma alegria verdadeira (241).

Objetos miseráveis ​​(335).

Meios ridículos (354).

Personalidades deploráveis (421).

E eu percorria os desertos para perseguir quaisquer restos de povos estranhos (347), assim traduz Suzanne Heintz a passagem que diz o seguinte no original: para perseguir o lixo da humanidade.[26]

Ocasionalmente as perturbações que levam a tal dureza de expressão se tornam evidentes no texto.

Quem diz abelhas diz mel (216) . .

E o que Claude Lévi-Strauss fez com as diferentes variedades de mel da floresta?

J ‚en ai recensé treize(307) – Ele não o come, não o cheira.

O mel é, seguindo a tradição de Marcel Mauss, “recenseado”.

Parfums s’analysent en plusieurs temps(307) – aromas não são cheirados, mas analisados em várias fases.

Quando ele come carne, ele não ingere nenhum pedaço do peito, nenhuma coxa – chacun     en devora une bonne livre–, ele engole meio quilo de carne (370).

Perroquet rôti et flambé au whisky – papagaio assado e flambado no uísque é apenas uma outra faceta da mesma insensibilidade.

Strauss permanece professor doutor, representante da Grande Nation também na floresta.

Mon chauffeur(235).

Só me restam 12 bois (371).

Meu chefe de grupo.

Me afastei de uma parte do meu grupo (388).

Meio século de história brasileira, curta demais para servirao julgamento de nossas sociedades milenares (107).

As extravagâncias do estilo de 1890 são parcialmente desculpáveis pelo peso e pela densidade do material (108).

Arquiteturas comparecem em Strauss para se desculpar.

Ele acusa os pintores de Florença de terem feito exatamente tudo aquilo que não deveria ser feito (472).

 

 

Mas nem sempre a brutalidade se esconde atrás de piedade, condescendência

e presunção:

Na página 179: Quelle difficulté pour se procurer ces pauvres objets!

La distribution préalable . . de nos bagues, colliers et broches de

verroterie est parfois insuffisante pour établir l’indispensable contact amical. – Para que o livro ainda seja vendável também em 1970, Suzanne Heintz traduz da seguinte maneira:

Que dificuldades se impunham para conseguir comprar um desses objetos miseráveis. A distribuição de todasnossas miçangas entre os membros da família em questão, todos nossos anéis, colares e brochas nem sempre e nem de longeeram suficientes para estabelecer o tãoindispensável contato amistoso.

– “todas”, “nem de longe”, “tão” foram urdidos pela tradutora.

No original a frase enuncia com toda dureza:

A distribuição prévia de nossos anéis, colares e brochas de miçangas a toda a família às vezes é insuficiente para estabelecer o indispensável contato amistoso.

Na mesma página:

On se sent honteux d’arracher à ces hommes si dépourvus un petit

outil dont la perte sera une irréparable diminution.

Na urdidura alemã:

No fundo agente tinha vergonha de obter dessas pessoas miseráveis algo que eles talvez nunca mais conseguirão substituir novamente.

Aí consta outra coisa:

Sentimo-nos envergonhados por arrancar daquelas pessoas carentes um pequeno instrumento cuja perda será uma diminuição irreparável.

 

Strauss é tão coquete quanto cínico.

O que ele faz por amor à uma experiência cientifica?

96: Um índio febril que encontramos sozinho numa aldeia abandonada, pareceu-nos uma presa fácil. Nós iríamosapertar-lhe um machado na mão, sacudi-lo um poucoe empurrá-lo. Infelizmente isso em nada ajudou, pois ele parecia ignorar por completo o que queríamos dele. Será que novamente não iriamos alcançar nosso objetivo? Decidimos apostar a nossa última carta e explicar-lhe que nós mesmos queríamos comer ‘corós’. Aí finalmente conseguimos arrastar a vitima diante de um tronco de uma árvore.

O original consta sem condicional, e o índio não é apenas sacudido um pouco.

Lhe metem um machado na mão, o sacudem, o empurram..

Esses são comportamentos da ocupação nazi na França, dos quais Strauss escapou por sua estadia em Nova Iorque.

 

Página 256 começa com uma narrativa mais longa:

Ao menos consegui convencer meus amigosde Utiariti a me levarem até sua aldeia e ali organizarem uma espéciede encontro com outros grupos aparentados ou aliados . .

. . ele apenas impôs a condição de que reduzíssemos nossa equipagem e que levássemos apenas quatro bois para carregar os presentes.

Essa viagem que no fundo era muito arriscada ficou na minha memoria como um episodio grotesco. Mal acabávamos de sair de Juruena, meu companheiro brasileiro observou a ausência das mulheres e das crianças; com efeito, só os homens nos acompanhavam, armados de arco e flechas. Segundo a literatura de viagem, tais circunstancias prenunciam um ataque iminente. Assim, íamos avançando em meio a sentimentos confusos, verificando vez ou outra a posição e prontidão de nossos revolveres Smith e Wesson – que nossos homens pronunciavam Cemite Vechetone – e de nossas carabinas.

 

Amigos diante de amigos.

O comportamento indignante do antropólogo deve ser abafado por uma trivialização, através do comentário complacente sobre a má pronuncia do inglês pelos brasileiros.

Mais tarde, não há nada para comer:

Os índios – s Sra. Heintz sempre traduz o termo les indiensque não tem conotação pejorativa pelo termo racista Indios(em alemão) – Os índios estavam confiantes de que iriamos encontrar presas, razão pela qual não tinha levado nada; nós mesmos só tínhamos as nossas rações de emergência, que evidentemente não alcançariam para todos.

No original consta:

Era impossível compartilha-las entre todos.

Na página 62: e raras vezes dedico-me a enfrentar um problema de sociologia ou de etnologia sem previamente revigorar minhas reflexões com algumas páginas (Marx) do 18 de brumário de Louis Bonaparteou da Crítica da economia política.

O líder da tribo indígena tem uma outra consciência socialista:

Ele sumiu, acompanhado por uma de suas mulheres; à noitinha, os dois retornaram, com suas cestas pesadas cheias de gafanhotos que eles haviam passado o dia inteiro colhendo. Embora o patê de gafanhotos não seja um prato muito apreciado, todos comeram com apetite e recobraram seu bom humor.

A história termina com uma lista:

A lista de objetos que eu deveria trocar pelos presentes dos índios. –

Índios maldosos.

Tristes Trópicos.

Strauss anda com quatro bois carregados de presentes, mas os índios só fazem de conta, como se estivessem dando presentes. Na realidade eles esperam objetos da virtude de presentear dos europeus.

Suzanne Heintz reconheceu exatamente a desmedida desta hipocrisia e ameniza-a na tradução:

. . A lista dos objetos . . que eu queria trocar pelos presentes dos índios.

Na página 200 pode-se observar Strauss fazendo compras em Paris:

Como os índios colorem suas linhas com urucum, eu também escolhi uma linha de tonalidade vermelha, fortemente retorcida, que conservava uma aparência artesanal. –

Com a dádiva de linhas artificialmente processadas ele quer obter valiosos objetos dos índios e desse modo ainda estraga seu sentido de estilo, mas no seu relato a respeito ele atribui aos índios a ânsia de posse.

É o mesmo procedimento que ele utiliza quando se queixa da ausência de revolta entre os indianos ou quando ele culpa os índios pelo seu conhecimento linguístico precário.

Na página 21 consta:

. . je me sentais déjà gibier de camp de concentration . .

Há em francês a expressão gibier de potence, que poderia ser traduzido por Galgenvogel, ave patibular[27], mas é mais preciso Galgenwild, presa do patíbulo [28]. Gibier de potenceé empregado numa situação senhorial, de modo complacente.

Gibier de camp de concentration.

KZ-Vogel, presa do campo de concentração.

Na página 42 consta:

Pauvre gibier, pris aux pièges de la civilisation mécanique, sauvages

de la forêt amazonienne, tendres et impuissantes victimes, je

peux me résigner à comprendre le destin qui vous anéantit . .

Pobre presa caída nas armadilhas da civilização mecânica, selvagens da floresta amazônica, meigas e impotentes, posso me resignar e compreender o destino que vos aniquila .  .

Outra dúvida retórica acerca da desumanidade que aniquila os índios, na sequencia, porém, o consentimento com o curso das coisas, a lei dos mais fortes etc.

A designação Pauvre gibier, pobre presa, pobre galinha, tinha condenado e submetidos os índios já no início do parágrafo.

Na página 144:

Nunca sem dúvida – exceto nos campos de concentração – as pessoas foram confundidas a tal ponto com carne de abate . .

como na Índia:

como na amarga exposição comercial, onde transcorre a vida religiosa na Índia

Não é o colonialismo e suas consequências que são semelhantes aos campos de concentração na Índia, mas as religiões populares! Elas confundem as pessoas com carne de abate.

Na página 377:

Il suffit d’une balle dans leurs troupes bondissantes (de singes)

pour abattre à coup presque sur une pièce de ce gibier; rôtie elle

devient une momie d’enfant aux mains crispées, et offre en ragoût

la saveur de l’oie.

Basta uma bala em seus grupos saltitantes (dos macacos) para abater, com certeza quase absoluta, um exemplar dessa caça; assada, transforma-se em múmia de criança com mãos crispadas, e, num guisado, tem gosto de ganso.

Une pièce de gibier.

Gibier de camp de concentration.

Índiens, pauvre gibier.

Momie d’enfant.

As religiões populares indianas confundem as pessoas com carne de abate, assim como aconteceu nos campos de concentração!

 

Na página 370:

Ou, quando surge um bando indígena, outra rotina se estabelece: recenseamento, nomes das partes do corpo, termos de parentesco, genealogias, inventários . .

 

É a rotina de um chefe de campo de concentração.

 

Página 112:

Nossos amigos não eram realmente pessoas, mas antes funções.

Página 152:

Comment donc ne pas emporter et . .  ne pas les traiter en bêtes,

puisqu’ils vous contraignent à les considérer tels par cette déraison

qui est la leur?

Lévi-Strauss fala dos rickshaw boys:

Não tem como não perder a paciência e tratá-los como animais, pois eles nos obrigam a isso por sua insensatez que lhes é própria.

O culpado não é quem ocasiona a desumanidade, mas quem a sofre:

Página 153:

E eu não posso, mesmo se sinto um pouco de vergonha, resistir a confundir os refugiados, que ouço o dia inteiro, das janelas de meu grande hotel, lamuriando-se e chorando à porta do primeiro-ministro, em vez de nos expulsarem de nossos quartos que alojariam várias famílias, com esses corvos pretos de papo cinzento que crocitam sem parar nas árvores de Karachi.

 

Um ar turbulento, auto- acusatório

Mas se trata de uma tremenda sacanagem quando alguém que está numa posição inexpugnável acusa os miseráveis incapazes: vocês são tão patéticos, que nem se revoltam contra mim.

Ao menos é honesta a apreciação: se tudo se passasse razoavelmente, viveriam no meu quarto palaciano várias famílias!?

Na página 455 podemos ler como ele reage quando indianos insistem no seu direito.

Ele irrompe – officiel et urgent – no único vagão da primeira classe, forçando uma família a se separar.

 

Muitas das passagens citadas parecem escritas numa espécie de transe, num chirriar que podemos observar também em Sartre, Malraux, Claudel, Jünger e muitos outros.

As passagens intimas, agradáveis e humorísticas me dão, assim como em Lorenz, mais horror; numa situação de escrita menos exagerada ele deveria poder ser tomado ao pé da letra:

Página 29:

Je suis tout occupé à photographier des détails d’architecture, poursuivi de place en place par une bande de négrillons à demi nus qui me supplient: tira o retrato ! tira o retrato! (“Fais-nous

une photo !”). A la fin, touché par une mendicité si gracieuse – une photo qu’ils ne verraient jamais plutôt que quelques sous – j’accepte d’exposer un cliché pour contenter les enfants.

O etnógrafo está completamenteocupado em fotografar detalhesda arquitetura – ou seja, em praticar diletantemente uma especialização muito difícil (os resultados do seu disparar turístico podem ser avaliadas na edição francesa, onde aparecem com legendas: “doce disputa . .” e “lutas amigáveis”, “a sonhadora”), quando ele à perseguidopor um bandode pequenos afro-americanos; Strauss opta pelo termo dos traficantes de escravos négrillons. Eles estão seminuse o imploram: Faça um retrato de nós. Com certeza eles não falaram incorretamente ‘Tira o retrato’, mas logicamente ‘Tira um retrato’, e isso, de qualquer maneira, não significa: Tire uma foto para nós. Eles não estão pensando em posse. No mais, nenhum menino negro da Bahia é tão estúpido para pensar antes da invenção da Polaroid que ele ainda poderia possuir a foto.

Eles talvez apenas queriam ser considerados dignos de representarem sua cidade.

Finalmente o cientista europeu, que trabalha concentradamente, é comovidopor uma mendicância tão graciosa.

Graciosa porque afinal eles podem segurar algumas moedas em suas mãos. Crianças negras esmolam de antemão. Elas geralmente têm apenas noção daquilo que elas podem tocar.

Ele está disposto então a expor à luz um clichê, para satisfazeras crianças.

Será que Strauss nunca parou para pensar sobre o que satisfaz uma criança negra na Bahia sob a ditadura de Getúlio Vargas?

 

A desumanidade desse comportamento e destas declarações só são superadas pelas estratégias do silenciar – no livro de 1955 e na edição alemã de 1970.

Gontram de Veiga Jardim, que em 1968 publicou uma série sobre os povos indígenas no jornal brasileiro Correio da Manhã, registrou o seguinte:

Nos últimos trinta anos foi cometido um genocídio dos povos indígenas sem igual.

Eles foram caçados com cães de caça, assassinados com aeronaves, alimentos a eles destinados foram envenenados com arsénio, suas roupas infectadas, deixou-se os índios morrerem de fome, foram exterminaram com napalm, lhes foi injetado varíola ao invés de soro, com facões eles foram cortados em pedaços.

Os Nambikwara estão hoje extintos. Os Bororo trabalham como escravos nas fazendas.Possivelmente estou sendo injusto com o teórico Strauss, talvez seus textos teóricos sejam humanos, precisos, fundados. Não quero ocultar que, depois de uma primeira leitura, também algumas [coisas] me pareceram disparates empolados.

Não é falta de decoro quando um escritor descompõe outro desta forma?

Certamente.

O que me fez Claude Lévi-Strauss?

Mas o que fez Claude Lévy-Strauss para alterar suas afirmações sobre os índios brasileiros?

Assim, o livro Tristes Tropiquesse tornou o ponto de partida para um novo empolamento, lamentação, brutalidade que caracterizam a literatura e a ciência dos anos setenta.

[pp. 319-351]