Hubert Fichte gostava de sexo. E gostava de viajar. Gostava particularmente do Brasil e dos brasileiros. Fichte nasceu em 1935 em Perleberg, Alemanha. De pai judeu, Fichte foi criado durante a Segunda Guerra Mundial escondido em um convento católico. Ele foi escritor, poeta maldito, homossexual, cronista do submundo de Hamburgo. Foi frequentemente recebido como polêmico, tornando-se figura chave do underground literário alemão dos anos 1960, notadamente pelo seu célebre romance Die Palette (1968).

Fichte tornou-se companheiro da fotografa alemã Leonore Mau (Leipzig em 1916 – Hamburgo em 2013) no início dos anos 1960 e por mais de 25 anos juntos, compartilharam o trabalho, as pesquisas e a cama; realizaram uma série de filmes experimentais e, sobretudo, viajaram seguindo rotas das diásporas africanas pelo Senegal, Benin, Nigéria, Togo, Haiti, República Dominicana, Granada, Venezuela, E.U.A. e, notadamente, pelo Brasil; pelo Rio de Janeiro, Salvador, São Luís, Recife, Belém, Manaus. Foi por meio dessas viagens que Fichte iniciou seu ciclo inacabado de 18 romances e ensaios sob o título Die Geschichte der Empfindlichkeit (A História da Sensibilidade). Sua contribuição ao mundo literário chega também como um importante compêndio de pesquisas sobre religiões afro-americanas como o Candomblé e o Tambor de Mina, ao mesmo tempo em que desenha vastas cartografias do submundo gay nas metrópoles brasileiras, durante o período da ditadura militar. Dessa complexa interseção nasce uma “outra” poesia, uma “outra” etnografia, uma “outra” forma de jornalismo e de comentário político, que chamou de “antropologia experimental” ou “etnopoesia”, e que exige “outras leituras”; leituras em contrafluxo. Fichte viveu os últimos anos de sua vida com HIV e faleceu em Hamburgo em 1986 depois de complicações de saúde em decorrência da AIDS.

O projeto Implosão: Trans(relacion)ando Hubert Fichte tenta responder aos desafios do convite que nos foi feito em 2015 pela Haus der Kulturen der Welt (Berlim), e particularmente por Diedrich Diederichsen e Anselm Franke, diretores artísticos do projeto Hubert Fichte:Love and Ethnology (Hubert Fichte: Amor e Etnologia), para fazermos edições brasileiras do projeto, em parceria com o Goethe Institut. Como criar um ambiente de recepção crítica para a obra de Fichte e ao mesmo tempo pôr em movimento questões fundamentais elaboradas por ele sem torná-lo protagonista dessas questões? Como também tentar enraizar as discussões nos contextos brasileiros? Decidimos começar a trabalhar organizando dois seminários de leitura e discussão coletivas junto a um grupo de artistas convidadas. As atividades se completaram por meio de programas públicos, apresentações discursivas e performances. O primeiro aconteceu em março de 2016, em Salvador, e posteriormente, em novembro do mesmo ano, seguimos com o seminário no Rio de Janeiro no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. Nossa matéria principal: trechos fornecidos por Marcelo Backes durante seu processo de tradução do livro Explosion. Roman der Ethnologie versado em Explosão. Romance da Etnologia – texto central da Geschichte der Empfindlichkeit fichteana e que narra suas andanças e experiências do autor e de Leonore Mau durante três viagens feitas ao Brasil, dentre os anos de 1969 – 1982.
Explosion. Roman der Ethnologie foi publicado em alemão postumamente, em 1993, e está sendo lançado no Brasil pela editora Hedra como parte desse projeto.

Desses seminários surgiu o núcleo expositivo de Implosão: Trans(relacio)nando Hubert Fichteque se compõe também por duas mostras, uma que abriu no dia 7 de novembro no Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador, e que estará em cartaz até o dia 17 de dezembro de 2017, e a versão carioca do projeto, apresentada no CMAHO e que ficará em exibição até o dia 13 de janeiro. O projeto se desdobra com a publicação Implosão (projeto de publicação), coeditado com a pesquisadora paraibana residente no Rio de Janeiro, Cíntia Guedes e que conta com a participação de relevantes pesquisadoras, ativistas, educadoras e artistas da cena nacional.

Por meio dos seminários, exposições e publicação buscamos que essas coletividades implicadas modulassem não somente processos de explosão, mas também de implosão: dos olhares, perspectivas, posições, determinações, preconceitos e lugares de fala do poeta libertário alemão, que procurou no Brasil novas alianças minoritárias, visitando terreiros, mães de santo,  celebridades da antropologia, banheiros públicos, praças, “cinemões” e outros lugares de “pegação” da época.

Nada disso teria sido possível sem o afeto, a disponibilidade e o trabalho de todas as pessoas envolvidas nesses processos. Às pesquisadoras, ativistas, artistas, educadoras, a Ayrson Heráclito, César Oiticica Filho, Coletivo Bonobando, Leticia Barreto, Michelle Mattiuzzi, Negro Leo e Rodrigo Bueno, à produtora do projeto, Luisa Hardman, enfim àquelas e àqueles que nos acompanharam de perto ao longo desses dois anos, agradecemos pela generosidade e dedicação.